Talvez você já tenha ganhado o jogo e continue jogando

Quando você sabe quanto custa a vida que quer levar, da reserva para atravessar anos ruins e o que gostaria de deixar para quem vem depois, a pergunta que orienta a carteira muda de figura.
Imagem: Gemini.

Em maio de 2005, a revista The New Yorker publicou um poema curto de Kurt Vonnegut. Era uma homenagem ao amigo Joseph Heller, autor de Ardil-22, que tinha morrido alguns anos antes.

A cena do poema é simples. Os dois estão numa festa em Shelter Island, no extremo leste de Long Island, na casa de um bilionário. Vonnegut provoca o amigo: o anfitrião talvez tivesse ganhado em um único dia mais dinheiro do que Ardil-22 havia rendido em toda a sua história.

Heller responde que tinha uma coisa que aquele homem jamais teria.

Vonnegut pergunta o quê. E Heller explica: a consciência de que já tinha o suficiente.

John Bogle, fundador da Vanguard, reproduz esse poema no livro Enough, uma das minhas leituras de referência. Na minha leitura, Heller não estava fazendo pose de desapego. Estava descrevendo uma habilidade rara. Pouca gente a desenvolve, e ela tem muito mais a ver com a forma como investimos do que parece à primeira vista.

A régua que sobe junto

Para entender por que essa habilidade é tão rara, vale olhar para o trabalho de Michael Norton, professor da Harvard Business School que estuda há anos a relação entre dinheiro e felicidade. Em uma de suas pesquisas, ele perguntou a milionários quão felizes eles eram numa escala de 1 a 10. Depois, quanto dinheiro precisariam ter para chegar ao 10.

Em entrevista à revista The Atlantic, Norton resumiu o padrão das respostas: em toda a escala de renda e patrimônio, praticamente todo mundo diz que precisaria de 2 a 3 vezes mais do que já tem.

Faça a conta com o seu próprio número. Quem tem R$ 2 milhões imagina que R$ 5 milhões resolveriam. Quem chega aos R$ 5 milhões passa a apontar para R$ 15 milhões. A distância até a linha de chegada continua parecida, porque a linha anda junto com você.

A psicologia tem um nome para isso: adaptação hedônica. Aquilo que conquistamos vira o novo normal, e o novo normal deixa de produzir satisfação.

Num estudo clássico de 1978, Philip Brickman e colegas compararam ganhadores de loteria com um grupo de pessoas comuns. Passado algum tempo do prêmio, os ganhadores não se diziam significativamente mais felizes. E relatavam menos prazer em coisas cotidianas, como conversar com um amigo ou ouvir uma boa piada.

Com o patrimônio acontece algo parecido. O número que um dia pareceu um sonho vira ponto de partida.

Onde isso encosta na carteira

Enquanto fica no campo da felicidade, o assunto parece filosófico. Na carteira, ele vira risco.

Quando não existe uma definição de suficiente, o único objetivo possível é mais. E mais justifica quase tudo: concentrar demais naquilo que deu certo, alongar o risco para buscar alguns pontos extras de retorno, manter uma exposição que já não tem relação nenhuma com a vida que o patrimônio precisa sustentar.

Morgan Housel escreveu em A Psicologia Financeira que a habilidade financeira mais difícil é fazer a linha de chegada parar de se mover. Concordo. E acrescento uma consequência prática.

Quem já ganhou o jogo e não percebeu continua jogando como se estivesse perdendo. Coloca em risco um patrimônio que sustenta a família para perseguir um dinheiro que não mudaria a vida de ninguém dentro de casa.

Minha própria régua já foi bem diferente. Aos vinte e poucos anos, eu associava sucesso a ficar rico, ser conhecido, ter status. Hoje considero essa visão superficial. Quando penso no que é sucesso para mim, dinheiro continua na lista. Só que aparece como dinheiro suficiente, ao lado de família, saúde, liberdade e tempo bem usado.

Parte disso vem de casa. Cresci numa família em que nunca faltou o essencial, mas também não havia luxo. Viagem era ir à praia. E a família era unida e alegre.

Isso me ensinou cedo que dinheiro facilita muito a vida, mas não explica sozinho por que uma casa é feliz.

O suficiente como critério de risco

Levar essa ideia para os investimentos não obriga ninguém a parar de investir ou de crescer. O que muda é a função do crescimento.

Quando você sabe quanto custa a vida que quer levar, de quanta reserva precisa para atravessar anos ruins e o que gostaria de deixar para quem vem depois, a pergunta que orienta a carteira muda de figura. Sai de cena o quanto mais dá para ganhar. Entra o quanto de risco este patrimônio realmente precisa correr.

A resposta pode surpreender, para um lado ou para o outro. Tem gente que descobre que corre muito mais risco do que a própria vida exige. E tem gente que percebe que está tão protegida que o patrimônio não vai cumprir o que precisa cumprir.

Heller nunca foi bilionário. Mas sabia exatamente onde ficava a própria linha de chegada. Para quem investe, isso vale mais do que costuma parecer.

Sobre o Autor

COMPARTILHE

Diagnóstico Patrimonial

Uma hora para transformar seu patrimônio em números claros.

É a primeira etapa do nosso método. Você entende onde está hoje, onde quer chegar e o que precisa acontecer no caminho.

Uma hora, online, reservado.

O que ler agora...

This website uses cookies

We use cookies to personalize content, provide social media features, and analyze our traffic. We also share information about your use of our site with our analytics partners. You can change your preferences at any time. For more information, please see our Privacy Policy and Cookie Policy.