O avanço da direita no Brasil e no mundo

Boa parte da América do Sul hoje é governada pela direita. O Brasil, no domingo, deu um passo na mesma direção, ainda que a decisão final só venha no dia 25.
Imagem: Gemini.

Na segunda-feira de manhã, o real acordou mais forte e a Bolsa abriu em alta. A apuração do primeiro turno havia terminado na véspera com Flávio Bolsonaro à frente de Lula, por cerca de 47% a 45% dos votos válidos, uma diferença de 2,2 milhões de votos.

Nenhuma lei mudou naquela noite. Nenhum orçamento foi votado, nenhuma regra tributária foi reescrita. Mudou apenas a probabilidade que milhões de pessoas passaram a atribuir ao que vem depois, e foi o bastante para mexer nos mercados.

As manchetes falam em avanço da direita. Eu acho a palavra correta e a leitura incompleta.

Comecemos pelos fatos. Em dezembro, o Chile elegeu José Antonio Kast com cerca de 58% dos votos, o presidente mais à direita desde o fim da ditadura de Pinochet. Na Argentina, o partido de Javier Milei venceu com folga as eleições legislativas de outubro do ano passado. A Bolívia elegeu um presidente de centro-direita, o Equador reelegeu Daniel Noboa, e boa parte da América do Sul hoje é governada pela direita. O Brasil, no domingo, deu um passo na mesma direção, ainda que a decisão final só venha no dia 25.

Na Europa, o movimento é parecido. Em setembro, a AfD venceu a eleição em um estado alemão com quase 44% dos votos, mais que o dobro do partido do chanceler. Na França, o partido de Marine Le Pen lidera as pesquisas para a eleição presidencial do ano que vem. No Reino Unido, o Reform UK disputa a primeira posição com o governo trabalhista.

Seria fácil descrever isso como uma conversão ideológica do Ocidente. Eu vejo algo mais simples, e que tem a ver com o momento do mundo. Vivemos o período com mais conflitos armados desde a Segunda Guerra. A guerra na Ucrânia entrou no quinto ano e obrigou a Europa a gastar com defesa o que não tinha. O conflito com o Irã estrangulou o Estreito de Ormuz e levou o diesel a preço recorde na França. Guerra longe vira conta de combustível e de supermercado perto, e quem paga é o eleitor. Ele cansou de bancar Estados que gastam cada vez mais e entregam cada vez menos, e passou a votar em quem promete arrumar a casa. As pessoas não estão escolhendo um rótulo. Estão pedindo mudança.

Mas não estou aqui para falar de política, estou aqui para falar do seu dinheiro.

Foi esse pedido de mudança que o mercado colocou no preço na segunda-feira. A aposta é em um governo mais disposto a conter gastos, em um Congresso mais conservador para aprovar esse ajuste e em espaço para o juro cair. Por isso os juros futuros despencaram, e ações de bancos e de varejo, que dependem de juro mais baixo, estiveram entre as maiores altas. São mudanças importantes, que o país adia há muitos anos, e fariam bem ao Brasil viessem de onde viessem.

Agora repare no que o mercado fez. Ele não premiou um resultado: apostou numa hipótese. A eleição não está decidida, a diferença foi de dois pontos, e a política, especialmente no Brasil, é capaz de mudar tudo em poucas semanas. Até o dia 25 haverá debates, pesquisas, denúncias e declarações, e cada um desses eventos moverá o preço de novo. Em outubro de 2022, no dia seguinte ao primeiro turno, a Bolsa subiu mais de 5% e o dólar caiu 4% com uma leitura parecida. Quatro semanas depois, o resultado foi outro.

O segundo ponto pesa ainda mais, porque não depende de quem vença. Os desafios do Brasil são enormes, e venho tratando deles aqui nas últimas semanas. As contas públicas não fecham e a dívida cresce. O juro básico voltou ao nível de 2016. Há recorde de empresas em recuperação judicial, e oito em cada dez famílias estão endividadas. O crime organizado ganhou tal dimensão que os Estados Unidos passaram a tratar PCC e CV como organizações terroristas, o que aperta o cerco sobre o dinheiro brasileiro lá fora.

Nada disso se resolve em quatro anos. Quem vencer no dia 25 assumirá um país em que quase metade dos eleitores votou no adversário, com um Congresso que exigirá negociação a cada medida. O mercado pode estar certo sobre a direção, e ainda assim o caminho será longo e cheio de sustos.

É por isso que, pensando em patrimônio e investimentos, o Brasil continua sendo um país arriscado, independentemente do resultado dessas eleições. Não digo isso como crítica, e sim como característica: uma moeda que oscila muito, um juro que vai de um extremo a outro e regras que mudam a cada ciclo. Na segunda-feira, quem mantém quase tudo no Brasil viu o que construiu valer mais, sem ter feito nada. Em outra segunda, pode ver o contrário, também sem ter feito nada. Um patrimônio que depende do resultado de uma urna não está sendo administrado, está sendo apostado.

A resposta não é sair do Brasil nem desistir dele. É não depender só dele. Todo investidor deveria ter uma parte considerável do que construiu em moeda forte e em mercados maiores, mais estáveis e mais previsíveis, onde uma eleição não muda o valor do patrimônio em uma manhã. Só a bolsa americana é cerca de 80 vezes maior que a brasileira.

Morgan Housel tem uma ideia que me acompanha há anos: a parte mais importante de qualquer plano é prever que as coisas não vão sair conforme o plano. Durante meses, vi investidores adiarem a internacionalização por medo do que viria em outubro. Agora há quem estava prestes a se estruturar e pensa em esperar, porque a Bolsa subiu e o dólar caiu. É o mesmo erro com sinal trocado: deixar o humor da política decidir a arquitetura do patrimônio.

Na prática, o momento ajuda quem age. Com o real mais forte, o mesmo patrimônio compra mais dólares do que comprava há um mês, e estruturar com calma custa menos do que estruturar com pressa. Ninguém contrata seguro com a casa pegando fogo; contrata quando o preço é justo e dá tempo de ler o contrato.

Pode ser que o Brasil esteja no começo de um ciclo melhor, e o mercado tem seus motivos para apostar nisso. Se for assim, quem diversificou continua participando dele com a parte que ficou aqui. Se não for, a parte que está fora não vai precisar pedir licença a ninguém. Nos dois casos, a decisão certa é a mesma, e ela não depende do dia 25. 

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— Daniel Fogaça

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