Amanhã o Brasil escolhe que país quer ser

O Brasil chega a esta eleição com uma lista de riscos que não foi criada pela campanha e não vai desaparecer com o resultado.
Imagem: Gemini.

Amanhã, mais de cento e cinquenta milhões de brasileiros vão às urnas escolher quem governa o país pelos próximos quatro anos. E eu quero começar esta carta por um lugar que parece distante disso: o púlpito de mármore verde da ONU, onde, há dez dias, o Brasil abriu a Assembleia Geral, como faz desde 1955, antes até dos Estados Unidos, que são os anfitriões. É a tradição diplomática mais antiga e mais elegante que o país possui, e ela diz algo bonito sobre o lugar que o Brasil um dia ocupou no mundo.

O problema é o que aconteceu dois dias depois. Enquanto o discurso brasileiro ainda ecoava, o presidente da China desembarcou em Washington para dois dias de reuniões na Casa Branca com o presidente americano. Sem plateia, sem tradução simultânea, os dois conversaram sobre petróleo, tarifas, soja e chips. E ali, numa sala onde o Brasil não estava, se decidiu mais sobre o futuro do agro brasileiro do que em qualquer discurso da semana.

Guarde essa imagem, porque ela resume o que está em jogo amanhã.

O Brasil chega a esta eleição com uma lista de riscos que não foi criada pela campanha e não vai desaparecer com o resultado. Ela existe hoje, independentemente de quem vença, e vale olhar para ela com frieza antes de qualquer conclusão.

Comecemos pelos riscos de dentro, que são três. O primeiro é econômico. Escrevi aqui há um mês sobre o que agosto trouxe: bilhões saindo da Bolsa, recorde de empresas em recuperação judicial, mais de oitenta por cento das famílias endividadas e juros num patamar que o país não via há uma década. Um juro assim não é um número técnico, é o preço que o mundo cobra para financiar um governo que gasta mais do que arrecada há anos, e ele se paga em crédito caro, em investimento adiado e em empresas que fecham.

O segundo é o crime organizado, que deixou de ser problema de segurança pública para virar problema de compliance internacional quando os Estados Unidos classificaram as maiores facções brasileiras como organizações terroristas. Hoje, qualquer transferência que sai do Brasil passa por um filtro mais duro por causa disso, e quem paga a conta é o empresário honesto.

O terceiro é o mais grave, porque é o alicerce dos outros dois. Nos últimos meses, um dos maiores bancos médios do país quebrou por fraude, o dono foi preso quando se preparava para fugir num jato particular, e a investigação subiu até o Supremo Tribunal Federal. Lá, o relator do caso trocou duas vezes por suspeita de proximidade com o banqueiro, mensagens da polícia passaram a citar um ministro da Corte, o próprio procurador-geral precisou explicar a sua relação com o investigado, e o Senado acumula mais de cem pedidos de impeachment contra um magistrado. Não estou julgando ninguém, e nem poderia. Estou constatando que a instituição que deveria ser a última garantia do contrato e da propriedade virou personagem do escândalo que deveria julgar. O Brasil não está em crise. Está em erosão, que é mais lenta, mais silenciosa e mais difícil de reverter.

Agora os riscos de fora, que são menos visíveis do Brasil e mais visíveis de onde eu moro. O país entra na eleição com uma briga comercial e diplomática aberta com Washington há mais de um ano, num momento em que o presidente americano acaba de ganhar do Congresso poderes ampliados para impor tarifas e disse, do púlpito da ONU, que decidirá entre reconstruir o Irã ou “lançá-los ao inferno, sem chance de sobrevivência”. Uma potência que fala assim decide sozinha, e decide rápido. Enquanto isso, ela e a China estão redesenhando o comércio mundial numa conversa a dois. Um historiador grego chamado Tucídides escreveu, há mais de dois mil anos, que o forte faz o que pode e o fraco sofre o que deve. Nunca li isso como pessimismo, e sim como uma descrição de como funciona um mundo em que as regras enfraquecem e as mesas encolhem. O Brasil, hoje, não está sentado em nenhuma delas.

Esses riscos, os de dentro e os de fora, se alimentam. Um país que não organiza suas contas não tem força para negociar lá fora. Um país cuja Justiça vira notícia policial não atrai o capital que faria falta para organizar as contas. Um país que briga com o seu maior parceiro fora da Ásia perde o investimento que sobrou. É um círculo, e ele gira há tempo suficiente para que ninguém precise nomear responsáveis. Basta olhar a direção.

E é aqui que a eleição de amanhã entra. Ela não vai criar nem eliminar essa lista. O que ela decide é o tamanho de cada item nos próximos quatro anos. Existe um Brasil possível que trata a disciplina fiscal como condição e não como obstáculo, que entende que soberania se exerce sentando à mesa e não discursando para ela, que devolve às instituições a discrição que elas perderam e que trata o investidor como parceiro em vez de suspeito. E existe outro Brasil possível que segue o caminho conhecido: mais gasto, mais juro, mais atrito com quem financia o mundo, mais tribunal nas manchetes e mais brasileiros preenchendo a declaração de saída definitiva, que já cresceu oitenta por cento. A urna não escolhe entre pessoas. Escolhe qual desses dois países vai amanhecer na segunda-feira.

Não vou dizer em quem votar, e não é por cautela. É porque essa decisão é sua, e porque a pergunta certa não é sobre um nome. É sobre que país você quer que os seus filhos herdem daqui a vinte anos: um que fala primeiro na ONU ou um que é ouvido depois, um que atrai capital ou um que assiste ao capital ir embora, um em que ficar é uma escolha ou um em que ficar é o que sobrou.

E existe uma segunda pergunta, mais próxima, que independe da primeira: o que acontece com o seu patrimônio se amanhã o resultado for o oposto do que você espera? Se a resposta for “não sei”, então ele está apostando na urna, e a urna é o pior lugar do mundo para deixar o futuro de uma família. Quem tem estrutura fora do país não precisa torcer por ninguém. Assiste à apuração com o mesmo interesse que todo mundo, mas dorme do mesmo jeito em qualquer cenário, porque o que construiu não cabe no resultado de uma noite.

Moro fora há pouco mais de um ano, e nunca deixei de me importar com o Brasil. Me importo o suficiente para escrever esta carta na véspera e para acreditar que o país pode escolher o caminho difícil e certo. Mas aprendi que se importar e depender são coisas diferentes, e que a única forma de continuar torcendo com serenidade é garantir que a minha família não seja refém do placar. Seja qual for o Brasil que amanhecer na segunda, o mundo continuará sendo um lugar de incertezas, e é para esse mundo que a GuiaInvest ajuda famílias a se estruturar. Um Diagnóstico Patrimonial Gratuito com um dos nossos especialistas é o primeiro passo para saber, antes da apuração, onde está a sua exposição de verdade.

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— Daniel Fogaça

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