Na terça-feira, 3 de novembro, os americanos foram às urnas e tiraram do partido do presidente o controle das duas casas do Congresso. Na manhã seguinte, quando o resultado foi reconhecido pela Casa Branca, a bolsa abriu em alta.
Não subiu porque um lado ganhou. Subiu porque a dúvida acabou.
Guarde essa sequência, porque ela explica melhor do que qualquer tese por que os Estados Unidos continuam sendo o centro do mundo financeiro, e por que isso importa para quem tem patrimônio no Brasil.
Comecemos pelos fatos, e não pelos confortáveis. Os Estados Unidos chegam a esta eleição no meio de uma guerra no Oriente Médio, com juros longos altos, inflação acima da meta, uma dívida pública que cresce mais rápido que a economia, uma disputa aberta com a China por tecnologia e cadeias produtivas, e um debate honesto sobre quanto da alta das ações é inteligência artificial e quanto é euforia. Nenhum desses problemas é inventado. Quem diz que está tudo bem não leu os números.
Agora os outros números. O S&P 500 fechou acima de 7.800 pontos em outubro, no seu vigésimo oitavo recorde histórico só neste ano. Em outubro de 2022 valia 3.577. Mais que dobrou em quatro anos, atravessando dois presidentes de partidos diferentes, um ciclo de aperto monetário, uma guerra e uma eleição que mudou a maioria do Congresso.
Segundo o FMI, no relatório sobre composição de reservas publicado em 30 de setembro, o dólar responde por 56,7% das reservas oficiais do mundo. O euro, por 20,6%. O yuan chinês, com uma década de esforço de Pequim, não passa de 2%. E o Banco de Compensações Internacionais mostra que o dólar está em 89% de todas as operações de câmbio do planeta. A moeda perde participação há duas décadas, de 71% em 2001 para os 57% de hoje. Mas quem lê isso como declínio esquece que o segundo colocado ficou vinte e seis pontos atrás.
E o tamanho. Dados compilados pela Bloomberg e pelo Deutsche Bank em junho apontam a capitalização da bolsa americana em cerca de US$ 80 trilhões, perto de 48% de todo o valor das empresas listadas no mundo, mais do que os nove mercados seguintes somados. A B3 vale cerca de US$ 1 trilhão. Oitenta vezes. Já escrevi aqui sobre o cardápio de um prato só, e o número não mudou.
A maioria vai olhar para a eleição de terça e reduzir a uma frase de torcida. Eu quero olhar para outro lugar: o mecanismo.
É verdade que a polarização americana cresce a cada ciclo. Vivo aqui, vejo nas conversas e nas redes, e não vou fingir que é saudável. Mas repare numa diferença que o brasileiro costuma não enxergar de longe: o espectro político americano é muito mais estreito do que o nosso. Democratas e republicanos divergem sobre impostos, imigração, gastos sociais e regulação. Nenhum dos dois discute propriedade privada, independência do banco central, mercado de capitais aberto ou se o contrato assinado vale. A briga é sobre o volume, nunca sobre a música.
No Brasil, a distância entre esquerda e direita inclui o próprio papel do Estado na economia, e é isso que faz o investidor brasileiro precisar torcer. Nos Estados Unidos, a eleição muda o governo. No Brasil, muda o modelo.
Desde 1993, a bolsa americana passou por quatro presidentes democratas e três republicanos, e multiplicou-se mais de quinze vezes. Nenhum deles foi o motivo. O mercado americano não sobe por causa de quem governa. Sobe por causa do que não muda quando o governo muda.
E o que não muda é uma lista longa. Os Estados Unidos são hoje o maior produtor de petróleo e gás do mundo, o que significa que a guerra no Oriente Médio encarece a gasolina deles, mas não os deixa reféns de ninguém. Das dez maiores empresas listadas do planeta, a quase totalidade é americana, e as que estão construindo a inteligência artificial que o resto do mundo vai alugar também.
O país segue sendo o destino número um do talento global: a universidade, o fundo de risco e o imigrante ambicioso se encontram no mesmo endereço, e isso ninguém copia por decreto. A demografia, com imigração, ainda cresce, enquanto China, Japão e Europa já encolhem. E o federalismo cria cinquenta laboratórios que competem entre si por capital e por gente: quando Nova York erra, a Flórida ganha, e o país inteiro aprende sem precisar de reforma nacional.
Warren Buffett escreveu a frase que dá título a esta carta no auge da pandemia, com o país fechado e dividido. Não era otimismo. Era a observação de quem viu o sistema ser testado por guerra, inflação de dois dígitos, crise financeira e vírus, e corrigir-se todas as vezes. Apostar contra a América é apostar que dessa vez a correção não vem.
Os céticos apontam o endividamento e a polarização. Reconheço os dois. Mas um país que discute abertamente seus problemas, em voz alta, numa eleição que o governo perde e aceita no dia seguinte, está exercendo a própria vantagem, não perdendo-a.
Agora o Brasil.
Escrevi aqui há duas semanas sobre o nosso segundo turno: Bolsa em circuit breaker e dólar na maior alta desde 1999. Dois países votaram no intervalo de dez dias. Num deles, a incerteza acabou e o mercado subiu. No outro, a incerteza acabou e o mercado caiu. Não digo isso como crítica, e sim como característica. Não estou aqui para falar de política, estou aqui para falar do seu dinheiro.
A diferença não foi o candidato. Foi o sistema que recebe o resultado. Um mercado de US$ 80 trilhões absorve uma eleição como quem absorve uma notícia. Um mercado de US$ 1 trilhão, numa moeda que o próprio Banco Central precisa remunerar a 14% ao ano para segurar, absorve uma eleição como quem leva um soco. E os desafios do Brasil são os mesmos de antes da urna, com qualquer vencedor.
Um patrimônio inteiro em reais não é uma posição neutra. É uma aposta de que o Brasil vai se corrigir mais rápido do que os Estados Unidos. Pode até acontecer. Mas é uma aposta, e a maioria de quem a faz nunca decidiu fazê-la. Herdou.
Da minha janela em Miami vejo todo dia quem já decidiu. Placas de Nova York nos estacionamentos, gestoras de São Paulo abrindo escritório em Brickell, vizinhos de Buenos Aires. Capital de três hemisférios chegando ao mesmo lugar, pelos mesmos motivos.
Na prática, dois pontos. Primeiro, dolarizar não é apostar que o dólar vai subir amanhã. É deixar de ficar exposto a ele sem proteção, porque a sua vida já é precificada em dólar, do iPhone ao remédio, e só a sua renda não é. Segundo, estrutura vence timing. Quem tem parte do patrimônio custodiado numa jurisdição estável, com sucessão desenhada, não precisa torcer por ninguém, nem lá nem aqui.
A resposta não é sair do Brasil nem desistir dele. É não depender só dele.
A pergunta que fica não é se os Estados Unidos vão continuar sendo o centro do mundo. Os dados respondem essa. A pergunta é quanto do que você construiu está apostado, sem você ter decidido, no único mercado que não é esse.
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— Daniel Fogaça







