Nassim Taleb conta, em A Lógica do Cisne Negro, a história de um peru.
Todos os dias, o peru é alimentado pelos humanos que cuidam dele. E cada refeição reforça uma conclusão que parece cada vez mais sólida: aquelas pessoas querem o seu bem.
No dia 1, a hipótese é frágil. No dia 100, já tem algum respaldo. No dia 1.000, o peru tem um histórico impecável e a maior confiança da sua vida.
Até a quarta-feira anterior ao Dia de Ação de Graças, quando acontece uma coisa que nenhum dos 1.000 dias anteriores tinha antecipado.
Taleb adaptou a história de uma versão mais antiga, do filósofo Bertrand Russell, que usava uma galinha. O detalhe que me interessa, porém, é dele: a sensação de segurança do peru atingiu o ponto máximo exatamente quando o risco também estava no ponto máximo.
Quando o sucesso ensina a coisa errada
Se fosse só uma fábula, eu não traria para cá. Acontece que existe pesquisa mostrando que investidores funcionam de um jeito parecido.
Em 2001, Simon Gervais e Terrance Odean publicaram um estudo chamado Learning to Be Overconfident, algo como aprendendo a ser confiante demais. A ideia central é que o investidor avalia a própria habilidade olhando para os próprios resultados.
Até aí, nada de errado. O problema é que ele atribui a si mesmo uma parte grande demais dos acertos. Cada ganho vira evidência de competência. Cada perda vira azar.
Com o tempo, uma sequência de bons resultados produz um investidor mais confiante do que deveria ser, e ele passa a operar de forma mais agressiva. O modelo dos autores chega então a uma conclusão incômoda: justamente por estar mais confiante, o investidor que acabou de ter sucesso pode ter um resultado esperado pior do que outro que teve menos sorte.
O que o histórico não mostra
Parte do problema está no próprio histórico. Taleb é um dos autores que mais influenciaram a minha forma de pensar incerteza, e em Iludido pelo Acaso ele propõe um exercício que acho muito útil: considerar as histórias alternativas.
Para cada resultado que de fato aconteceu, houve vários outros que poderiam ter acontecido e não aconteceram. Um histórico de 10 anos mostra só o caminho que se realizou. Não mostra quantas vezes você passou perto de um desastre sem perceber.
Na prática, isso aparece em lugares bem conhecidos. Pensa num título de crédito que paga juros pontualmente todos os meses. Cada pagamento é mais uma evidência de que ele é seguro, e a confiança do investidor cresce a cada mês, como a do peru.
Até o mês em que o pagamento não vem.
A frequência dos acertos dizia muito pouco sobre o tamanho do risco.
O mesmo vale para quem construiu patrimônio concentrado no setor que conhece, para quem se acostumou a uma estratégia que sempre se recuperou das quedas ou para quem usa alavancagem há anos sem nenhum susto. Em todos esses casos, o tempo de sucesso alimenta a confiança. O tamanho do estrago possível continua o mesmo.
Trocar a pergunta
Por isso, acho mais útil trocar a pergunta. Em vez de perguntar há quanto tempo isso funciona, vale perguntar o que acontece com o seu patrimônio se parar de funcionar.
A primeira pergunta olha para trás e sempre favorece o que deu certo. A segunda olha para a consequência. Ela não exige prever quando o problema vai aparecer, coisa que ninguém sabe fazer. Exige saber se o patrimônio sobrevive a ele.
Isso não quer dizer desconfiar de tudo que dá certo. Um peru que desconfiasse de toda refeição morreria de fome.
O ponto é separar as exposições em que um erro custa caro, mas é recuperável, daquelas em que um único evento pode causar um dano permanente. Para essas, nenhum histórico deveria ser suficiente para baixar a guarda.
Acredito que não fazer uma grande besteira financeira pode ser mais importante do que ter uma grande sacada. E as grandes besteiras raramente acontecem com quem está inseguro. Acontecem com quem está confiante demais depois de muitos dias de comida no prato.
Qual é a exposição da sua carteira que está há mais tempo sem dar nenhum susto?







