Na manhã seguinte ao segundo turno, muita gente abriu o aplicativo de investimentos e tomou um susto.
O Ibovespa chegou a cair mais de 17%, acionou o circuit breaker e encerrou o pregão com queda de 13,88%. O dólar subiu 8,21%, para R$ 5,40, enquanto os juros futuros dispararam em praticamente todos os vencimentos.
Foi uma reação forte. Mas, antes de transformar esse movimento em uma decisão definitiva sobre o patrimônio, precisamos entender o que realmente aconteceu.
Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Como parte relevante dos investidores havia montado posições esperando o resultado oposto, o primeiro pregão serviu para desmontar essas apostas e recalcular o preço dos ativos brasileiros.
Em outras palavras, o mercado não estava apenas reagindo à eleição. Estava corrigindo expectativas que tinham sido construídas antes dela.
Agora, a pergunta importante deixa de ser “quem venceu?” e passa a ser “como será conduzida a economia?”.
O principal ponto de atenção será a política fiscal. Quando aumenta a dúvida sobre a capacidade do governo de equilibrar receitas, despesas e dívida pública, os investidores exigem uma remuneração maior para manter dinheiro no país. Esse adicional é chamado de prêmio de risco.
Quando ele sobe, os títulos públicos passam a pagar taxas mais altas, o custo de financiamento das empresas aumenta, o dólar tende a se valorizar e a Bolsa perde valor. Quando o governo apresenta medidas fiscais consistentes, o movimento pode seguir a direção contrária.
O ponto de partida exige atenção. O Boletim Focus divulgado em 26 de outubro projetava inflação de 5,19% em 2026 e 4,34% em 2027, com crescimento do PIB de apenas 1,80% e 1,31%, respectivamente. Essas estimativas foram coletadas antes do segundo turno e ainda não incorporavam a reação dos mercados.
Isso sugere um ambiente de inflação resistente, crescimento moderado e juros elevados por mais tempo.
Mas o presidente não governa sozinho. O PL elegeu 121 deputados e formou a maior bancada da Câmara, enquanto a Federação PT-PCdoB-PV ficou com 88 cadeiras. No Senado, o PL também terá a maior representação. Esse equilíbrio de forças pode limitar decisões mais radicais, embora também possa dificultar reformas necessárias.
Para os investimentos, o cenário-base é de maior volatilidade e desempenho incerto dos ativos brasileiros no curto prazo. Isso não significa quatro anos de perdas. Significa que o retorno provavelmente dependerá menos de uma alta generalizada e mais da qualidade dos ativos, do preço de compra e da construção da carteira.
Na renda fixa, os pós-fixados continuam importantes porque acompanham o CDI e sofrem pouco com a oscilação dos juros longos. Os títulos ligados à inflação também ficaram mais interessantes, mas precisam ter vencimentos compatíveis com o horizonte do investidor. Quanto mais longo o título, maior pode ser a variação de preço antes do vencimento.
No crédito privado, o cuidado precisa ser redobrado. Juros altos pressionam empresas endividadas, dificultam refinanciamentos e aumentam o risco de eventos de crédito. Uma taxa muito acima da média pode parecer oportunidade, mas frequentemente representa uma compensação por riscos que não estão evidentes na tela do aplicativo.
Na Bolsa, a queda tornou algumas empresas mais baratas, mas preço e múltiplos menores não transformam automaticamente qualquer ação em oportunidade. A preferência deve recair sobre companhias com endividamento baixo, geração recorrente de caixa, boa governança e capacidade de preservar margens. Empresas muito alavancadas e dependentes de crédito barato tendem a sofrer mais nos próximos anos com um cenário de juros estruturalmente elevados.
Já a parcela internacional volta a mostrar por que deve ser estrutural. Quando o risco doméstico aumenta, a valorização do dólar pode amortecer parte das perdas dos ativos brasileiros. Isso não significa vender tudo e fugir para a moeda americana, mas evitar que todo o patrimônio dependa do mesmo país, da mesma moeda e do mesmo cenário político.
Nossos estudos próprios mostram que entre junho de 2002 e setembro de 2026, uma carteira moderada, diversificada e rebalanceada rendeu 7,0% ao ano acima da inflação e não perdeu para o IPCA em nenhuma janela de três anos. Nesse mesmo período, quem concentrou tudo na Bolsa ou no dólar, perdeu da inflação em quase metade dessas janelas.
A principal lição não é que uma carteira diversificada vence em todos os anos. Ela não vence. Sua função é reduzir a dependência de uma única previsão e evitar que um erro de cenário comprometa todo o patrimônio.
Mais do que buscar retornos extraordinários no curto prazo, o fator decisivo para a formação de patrimônio é a consistência da rentabilidade ao longo do tempo. É dessa forma que o acúmulo de capital realmente se consolida.
Enxergamos que atualmente o momento pede prudência, não pânico. Rebalancear a carteira pode ser necessário. Abandonar a estratégia por causa de um único pregão é outra coisa.
O mercado já deu seu primeiro recado. Agora, precisamos acompanhar a equipe econômica, o orçamento de 2027, a relação com o Congresso, as expectativas de inflação e a trajetória das contas públicas. Serão esses fatores, e não apenas o nome do presidente, que definirão o comportamento dos ativos nos próximos meses.
A pergunta que fica é simples: sua carteira foi construída para depender de um cenário político específico ou para atravessar cenários diferentes?







