Antes do segundo turno: sua carteira precisa de uma aposta ou de uma estratégia?

É natural que o investidor se pergunte: devo aumentar minhas posições antes do resultado ou esperar até que o cenário fique mais claro?
Imagem: Gemini.

No próximo domingo, 25 de outubro, o Brasil volta às urnas para escolher o próximo presidente. Até lá, uma nova pesquisa, uma declaração ou uma sinalização sobre a futura equipe econômica pode provocar movimentos fortes na Bolsa, no dólar e nas taxas de juros.

É natural que o investidor se pergunte: devo aumentar minhas posições antes do resultado ou esperar até que o cenário fique mais claro?

A resposta mais prudente talvez não esteja em nenhum desses extremos.

Entrar com força agora significa apostar em um resultado que ainda não aconteceu e pagar preços que já incorporam parte das expectativas positivas. Esperar até que todas as dúvidas desapareçam, por outro lado, pode significar comprar depois de uma parcela importante da valorização.

Entre a euforia e a paralisia existe um caminho mais racional: manter a carteira preparada para participar de uma eventual melhora dos ativos brasileiros, sem transformar o patrimônio em uma aposta eleitoral.

O mercado se antecipou

O primeiro turno provocou uma reprecificação relevante dos ativos brasileiros. O Ibovespa superou os 200 mil pontos pela primeira vez, o dólar recuou para menos de R$ 5 e os juros futuros caíram mais de 100 pontos-base ao longo da semana seguinte ao primeiro turno.

Esse movimento não representa uma preferência política do mercado. Representa uma mudança nas probabilidades atribuídas aos diferentes cenários econômicos, especialmente à possibilidade de maior disciplina fiscal, redução do prêmio de risco e queda dos juros de longo prazo.

O ponto central é fiscal. A Instituição Fiscal Independente estima que o setor público precisaria gerar superávit primário de aproximadamente 2,1% do PIB ao ano para estabilizar a relação entre dívida e PIB, considerando suas premissas de crescimento e juros. Ao mesmo tempo, o Tesouro projeta que a dívida bruta alcance 83,5% do PIB em 2026 e continue subindo até 2029 no cenário de referência, antes de iniciar uma trajetória gradual de queda.

Portanto, a eleição pode mudar expectativas, mas não resolve a equação fiscal por si só. Para que um ciclo de valorização se sustente, serão necessários sinais concretos: composição da equipe econômica, metas críveis, controle da expansão das despesas e capacidade política para aprovar medidas no Congresso.

É justamente por isso que aumentar muito o risco antes da votação pode ser perigoso. O mercado já antecipou parte de um cenário benigno com base em expectativas, mas os fatos que justificariam essa valorização ainda precisam aparecer.

Urna não encerra a análise.

As eleições costumam produzir movimentos rápidos, mas o histórico mostra que a reação imediata ao resultado não segue uma regra confiável. Em seis segundos turnos realizados entre 2002 e 2022, o Ibovespa caiu no primeiro pregão após a votação em quatro ocasiões; em 2018, por exemplo, o índice recuou 2,24% no dia seguinte à confirmação de um resultado que já era amplamente esperado.

Isso ocorre porque o mercado não negocia apenas o fato, mas a diferença entre o resultado e aquilo que já estava nos preços. Uma vitória considerada provável pode provocar pouca alta, ou até realização de lucros. Uma surpresa pode gerar ajuste mais brusco porque obriga os investidores a refazer rapidamente suas premissas para juros, câmbio, inflação e crescimento.

Hoje, as estimativas de mercado já apontam Selic de 13,25% ao fim de 2026 e 12% em 2027. Ao mesmo tempo, a projeção para o IPCA de 2026 está em 5,22%, mostrando que a inflação continua sendo uma fonte relevante de risco.

Portanto, não basta perguntar quem vencerá. É preciso perguntar: Quanto desse resultado já está incorporado nos preços?

O segundo turno elimina a incerteza sobre o nome do presidente, mas não elimina as incertezas sobre a política econômica.

O que já está no preço?

Não há uma medida exata de quanto da eleição está incorporado nas cotações, nem consenso sobre o tamanho do movimento restante. Comprar porque um resultado parece provável só faz sentido se o preço ainda oferecer uma compensação adequada pelo risco.

A explicação está no ponto de partida: se os preços já carregam expectativa de maior disciplina fiscal, confirmar essa expectativa pode acrescentar menos valor do que frustrá-la retiraria. Isso não exige atribuir a mesma probabilidade aos dois resultados. Exige reconhecer que o tamanho de uma possível perda também importa.

Também não basta a confirmação do candidato que o mercado associa ao ajuste. Um resultado eleitoral favorável às expectativas, seguido de uma equipe sem credibilidade ou de medidas insuficientes, pode frustrar quem comprou antecipadamente. Na direção oposta, sinais fiscais consistentes podem melhorar a percepção de risco independentemente do vencedor.

A alta pode vir em etapas

A sustentação da Bolsa exige distinguir duas fontes de valorização: pagar mais pelos mesmos lucros esperados porque o risco diminuiu; e revisar para cima os próprios lucros. Boa parte do movimento recente se deve à expectativa de juros menores, não à revisão dos resultados das empresas.

Em termos simples, o mercado pode elevar o valor de uma companhia antes que ela venda mais ou gere mais caixa. Essa antecipação é legítima, mas fica vulnerável se o fundamento esperado não aparecer.

Uma melhora duradoura pode, portanto, ser construída em etapas: confirmação eleitoral, definição da equipe e, depois, apresentação e execução de medidas fiscais. Para quem já mantém exposição, isso reduz a necessidade de concentrar toda a decisão no pregão seguinte à votação.

A carteira antes da urna

Nas carteiras recomendadas, nossa decisão foi manter uma macroalocação capaz de atravessar os dois cenários, sem dobrar uma aposta direcional antes do resultado.

Na renda fixa, os pós-fixados atrelados ao CDI permanecem como base. Com a Selic em 13,75% ao ano, essa parcela continua oferecendo remuneração nominal elevada, liquidez e baixa sensibilidade à oscilação dos juros longos. Mais do que um ativo defensivo, o pós-fixado remunera a espera enquanto surgem novas  informações.

Os títulos atrelados à inflação também continuam com papel importante. Eles protegem o poder de compra por meio da correção pelo IPCA e podem se valorizar por marcação a mercado se o novo cenário fiscal permitir uma queda relevante dos juros reais de longo prazo.

Cabe lembrar que os títulos atrelados ao IPCA não representam uma posição sem risco. Títulos IPCA+ longos podem oscilar bastante antes do vencimento, e uma piora fiscal pode devolver parte dos ganhos recentes. O papel deve estar alinhado ao horizonte do investidor e, quando utilizado para buscar valorização por marcação a mercado, precisa ter tamanho compatível com o risco assumido.

Na parcela pós-fixada, a escolha do instrumento também importa: risco de crédito, prazo e liquidez precisam ser avaliados. Estar atrelado ao CDI não torna todos os investimentos igualmente seguros ou disponíveis para resgate.

Neste momento, os prefixados não fazem parte da alocação recomendada. Após a forte queda da curva de juros, a relação entre retorno adicional e risco ficou menos atraente. Se o cenário benigno se confirmar, eles ainda podem ganhar valor; porém, se inflação e prêmio fiscal voltarem a subir, o investidor fica integralmente exposto à taxa nominal contratada, sem a proteção explícita do IPCA.

A preferência por pós-fixados e títulos de inflação não significa tentar prever com exatidão o próximo movimento da Selic. Significa distribuir funções: o CDI remunera a espera e reduz volatilidade; o IPCA+ protege o poder de compra e oferece exposição a uma eventual queda dos juros reais.

Bolsa sem exagero

A exposição à Bolsa brasileira também deve ser mantida, mas dentro dos percentuais definidos para cada perfil de risco.

Se o Brasil entrar em um ciclo de redução do prêmio fiscal, queda dos juros e retorno do capital estrangeiro, as ações podem continuar se valorizando por vários anos. Nesse cenário, empresas ligadas à economia doméstica e mais sensíveis ao custo de capital podem se beneficiar. Companhias financeiras, negócios de infraestrutura e empresas de qualidade negociadas a preços razoáveis também podem cumprir papéis importantes na carteira.

Mas essa possibilidade não justifica concentrar o patrimônio em uma única tese. A Bolsa já percorreu uma primeira etapa da reprecificação, e o mercado atual pode reagir de forma assimétrica: um resultado alinhado ao consenso tende a precisar de entregas fiscais para sustentar novas altas, enquanto uma surpresa negativa pode desfazer rapidamente parte do movimento recente.

Por isso, o investidor que teve forte valorização em determinadas ações deve verificar se elas ultrapassaram o peso máximo estabelecido. Se isso aconteceu, realizar parcialmente os lucros e rebalancear a carteira não representa abandonar a tese. Representa controlar o risco.

Um cuidado adicional: diversificar produtos não basta se todos dependem da mesma tese. Bolsa doméstica e títulos IPCA+ longos podem sofrer simultaneamente numa abertura dos juros. Portanto, a carteira participa de um cenário favorável, mas não está imune ao resultado contrário. O controle deve considerar essa sensibilidade conjunta, além da liquidez, dos vencimentos e da exposição internacional.

O custo da certeza

Esperar alguma confirmação pode custar pouco. Esperar certeza absoluta costuma custar mais.

Em ciclos econômicos relevantes, a melhora não acontece de uma só vez. Primeiro muda a percepção; depois chegam a equipe, as propostas, a negociação política e, finalmente, a execução. O mercado ajusta os preços em cada uma dessas etapas.

A lição não é comprar tudo antes do primeiro fato. Também não é permanecer fora até o último risco desaparecer. É avançar de forma gradual, aumentando a exposição à medida que a convicção passa a ser sustentada por informações verificáveis.

O investidor já posicionado participa desde o início caso o cenário positivo se confirme. Ao mesmo tempo, mantém liquidez e margem para ampliar posições se surgirem evidências concretas de melhora fiscal. Se o resultado frustrar as expectativas, a diversificação reduz o impacto sobre o patrimônio e cria recursos para aproveitar preços mais baixos.

Essa é a função da macroalocação: evitar que uma única eleição, pesquisa ou decisão tática determine o futuro financeiro do investidor.

Depois de domingo

Na próxima semana, o mercado provavelmente reagirá antes mesmo de conhecer os detalhes da política econômica. Mas a decisão mais importante não será tomada na abertura de segunda-feira.

Os sinais realmente relevantes virão depois:

  • Os nomes e a credibilidade da equipe econômica.
  • A proposta para estabilizar a dívida pública.
  • A relação do Executivo com o Congresso.
  • A trajetória esperada para inflação e juros.
  • A capacidade de transformar promessas em medidas executáveis.

Se esses sinais forem construtivos, haverá espaço para aumentar gradualmente a exposição aos ativos mais sensíveis aos juros e à economia doméstica. Se forem insuficientes, a parcela pós-fixada e a diversificação da carteira terão cumprido seu papel.

O objetivo não é acertar o resultado eleitoral e comemorar o pregão seguinte. É preservar e ampliar o patrimônio ao longo dos próximos anos.

Uma carteira bem construída não precisa adivinhar o vencedor para funcionar. Precisa estar preparada para participar dos cenários favoráveis, sobreviver aos adversos e se adaptar quando os fatos aumentarem a convicção.

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