Ter dinheiro em 5 instituições não é o mesmo que diversificar

A gente não trata o dinheiro como uma coisa só. Separa em contas imaginárias, conforme a origem e o destino, e cada conta ganha regras próprias.
Imagem: Gemini.

Imagine que você decidiu ir ao teatro e o ingresso custa R$ 100. Ao chegar à bilheteria, percebe que perdeu uma nota de R$ 100 no caminho.

Você compraria o ingresso mesmo assim?

Agora, outra versão. Você já tinha comprado o ingresso, por R$ 100, e ao chegar ao teatro descobre que o perdeu. Não há como recuperá-lo. Você pagaria mais R$ 100 por outro?

Amos Tversky e Daniel Kahneman fizeram essas duas perguntas a grupos diferentes, num estudo publicado em 1981 na revista Science. Na primeira situação, 88% disseram que comprariam o ingresso.

Na segunda, só 46%.

Do ponto de vista financeiro, os dois casos são idênticos. Nos dois você ficou R$ 100 mais pobre e precisa decidir se gasta outros R$ 100 para ver a peça. O que muda é a gaveta mental de onde o prejuízo parece ter saído.

A nota perdida sai do dinheiro em geral. O ingresso perdido sai da conta do teatro, e comprar outro dá a sensação de que a peça passou a custar R$ 200.

O nome disso é contabilidade mental

Essa gaveta tem nome. Richard Thaler, que anos depois ganharia o Nobel de Economia, chamou o fenômeno de contabilidade mental. A gente não trata o dinheiro como uma coisa só. Separa em contas imaginárias, conforme a origem e o destino, e cada conta ganha regras próprias.

Pensa comigo em como isso aparece no dia a dia. Dinheiro que chega de surpresa costuma ser gasto com mais facilidade do que o salário. Lucro recente parece menos nosso do que o capital original.

Thaler e Eric Johnson mostraram, em 1990, que depois de um ganho as pessoas aceitam apostas que recusariam em outra situação. É como se estivessem jogando com o dinheiro da banca.

E a previdência vira intocável, enquanto outra parte do patrimônio, às vezes muito parecida, é tratada como dinheiro para movimentar.

Vale uma ressalva, porque eu não quero demonizar as gavetas. O próprio Thaler mostra que elas ajudam: separar uma reserva ou tratar a aposentadoria como sagrada protege muita gente de si mesma.

Para organizar comportamento, a separação funciona muito bem. O problema começa quando ela passa a ser usada para medir risco.

As gavetas do patrimônio

E, num patrimônio de alguns milhões, as gavetas costumam ser maiores e mais numerosas. Tem a carteira na corretora, a previdência, a conta no banco onde fica a reserva, o imóvel alugado e, às vezes, uma participação na empresa da família.

Cada parte foi montada num momento diferente, por um motivo diferente, muitas vezes com orientação de pessoas diferentes. E cada uma, olhada sozinha, parece razoável.

Para ver o que acontece quando elas se somam, imagine 3 situações hipotéticas.

Um empresário do agronegócio tem o próprio negócio exposto ao preço das commodities. Tem também uma carteira de ações com peso relevante em empresas do mesmo setor e um fundo na previdência que, por coincidência, segue um caminho parecido. São 3 gavetas e uma única aposta.

Outro investidor mantém dinheiro parado em 3 lugares diferentes, porque cada conta foi montada com sua própria reserva de liquidez. Somadas, essas reservas imobilizam uma fatia do patrimônio bem maior do que a vida dele exige.

Um terceiro comemora o resultado da carteira da corretora, que foi muito bem no ano. Só que o patrimônio como um todo perdeu para a inflação, porque a maior parte estava numa gaveta que ninguém acompanhava de perto.

Em nenhum desses casos existe um investimento ruim. O problema mora na soma, e a soma é justamente o que a contabilidade mental nos impede de ver.

Abrir todas as gavetas ao mesmo tempo

A saída, então, é olhar tudo junto. Na GuiaInvest Wealth partimos de uma ideia simples: um patrimônio funciona como um sistema. Crescimento, liquidez, risco, tributação e sucessão precisam estar alinhados, e esse alinhamento só pode ser avaliado com todas as gavetas abertas.

Ativos diferentes, guardados em instituições diferentes, podem carregar exatamente a mesma exposição. Ter conta em 5 lugares, por si só, não diversifica nada.

O ingresso perdido custa R$ 100 em qualquer uma das duas versões da história. O risco do seu patrimônio também é um só, não importa em quantas gavetas ele esteja guardado.

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