No domingo, 25 de outubro, Lula foi reeleito presidente do Brasil com 51,79% dos votos válidos, numa margem estreita como tem sido a regra no país desde 2014.
O mercado, por sua vez, deu a resposta dele na manhã seguinte. Na segunda-feira, a Bolsa brasileira parou no meio do pregão: o Ibovespa caía mais de 10% quando a B3 acionou o circuit breaker, o mecanismo que interrompe as negociações para o mercado respirar.
Quando o dia terminou, o índice estava 13,88% abaixo de sexta-feira, na maior queda desde março de 2020. O dólar fez o caminho inverso e subiu mais de 8% em um único dia, algo que não acontecia desde janeiro de 1999, quando o Plano Real abandonou a âncora cambial.
Nenhuma lei mudou entre a sexta e a segunda, e nenhum número da economia brasileira foi reescrito. O que mudou, e isso não é pouco, foi a expectativa. Preço é expectativa, e expectativa é o que o mercado tem sobre o futuro, não o que ele sabe sobre o presente.
Três semanas atrás, depois do primeiro turno, o mercado apostou que o Brasil escolheria um caminho e precificou essa aposta com entusiasmo; no domingo descobriu que o caminho seria outro e refez a conta de uma vez só. O que me interessa nesta carta é olhar para essa conta inteira: o que o Brasil carrega por dentro e o mundo em que vai ter que se mover nos próximos quatro anos.
Repito aqui a frase que uso sempre que o tema passa pela urna: não estou aqui para falar de política, estou aqui para falar do seu dinheiro. Não vou avaliar o governo que começa em janeiro. O que me interessa é o terreno onde ele vai pisar, dentro e fora do país, porque esse terreno seria exatamente o mesmo para qualquer vencedor.
Dentro de casa, os desafios são conhecidos, e já tratei de quase todos aqui.
O primeiro é a dívida pública: o governo deve quase 90% de tudo o que o país produz em um ano, e esse número vem subindo, não caindo.
O segundo são os juros: com a Selic acima de 13%, o Brasil paga uma das contas de juros mais caras do mundo para rolar essa dívida, e cada ano sem ajuste faz a bola de neve crescer.
O terceiro é o que esses juros já fizeram com a economia real, como mostrei em setembro: recorde de empresas em recuperação judicial, Casas Bahia e Braskem em reestruturação, 82% das famílias endividadas e R$ 21 bilhões de capital estrangeiro saindo da Bolsa em um único mês.
O quarto é o crescimento: a Fitch, em relatório publicado três dias antes do segundo turno, já previa que a economia desaceleraria em 2027 e que o próximo governo teria que apertar o cinto, fosse quem fosse o vencedor.
Governo, empresas e famílias estão endividados ao mesmo tempo, e nada disso mudou no domingo. A diferença em relação aos mandatos anteriores de Lula é que, desta vez, o lado de fora não vai ajudar a pagar essa conta.
Nos dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010, o Brasil tinha o vento a favor. A China crescia a dois dígitos e comprava tudo o que o país produzia, as commodities viviam um superciclo, os juros no mundo desenvolvido eram baixos e a liquidez era abundante. Boa parte da bonança daquele período foi construída fora do Brasil, e isso valeria para qualquer governo que tivesse ocupado o Planalto naqueles anos.
O mundo de 2027 vem de frente, e em três frentes ao mesmo tempo.
A primeira é o custo do capital. Em setembro, o Federal Reserve subiu os juros pela primeira vez desde 2023, para a faixa de 3,75% a 4%, com a inflação americana em 3,7% e o custo da energia pressionado pelo conflito no Oriente Médio, e o mercado já precifica novas altas em dezembro e no início do ano que vem. Segundo o relatório de outubro do FMI, bancos centrais do mundo inteiro estão no mesmo movimento.
Um país que paga juros reais entre os mais altos do planeta para rolar a própria dívida vai precisar atrair capital num mundo em que o capital rende mais em casa. O dinheiro global ficou mais caro, mais escasso e mais seletivo, e um país que ainda precisa fazer o ajuste vai disputá-lo com países que já fizeram. A Argentina, de quem tratei aqui em julho, viu seu risco-país cair de 3.000 para menos de 500 pontos em dois anos de disciplina fiscal e está na mesma prateleira, oferecendo o mesmo produto a preço menor.
A segunda frente é o comércio, e os dois maiores clientes do Brasil estão mudando de comportamento ao mesmo tempo. Os Estados Unidos aplicam desde julho de 2025 uma tarifa de 50% sobre boa parte dos produtos brasileiros, a mais alta imposta a qualquer país, e a corrente de comércio entre os dois caiu 11,3% entre janeiro e julho deste ano, segundo a Secretaria de Comércio Exterior, com o Brasil fechando o período em déficit. A negociação foi reaberta em agosto, mas a eleição não a encerrou.
Do outro lado, a China já responde por quase 30% das exportações brasileiras, segundo o Icomex da Fundação Getulio Vargas, cresce menos da metade do que crescia há vinte anos e, pelo seu próprio plano quinquenal, trabalha para depender menos de fornecedores estrangeiros de alimentos. O Brasil vende commodities para um cliente que compra menos e produtos industriais para um cliente que taxa mais.
A terceira frente é a geopolítica, e aqui a eleição pesa mais do que parece. Escrevi em agosto que Washington tratava o resultado de outubro como um teste para a região, e o cerco de compliance sobre o dinheiro brasileiro, que começou com a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas em maio, não depende de quem ganhou.
Daqui a uma semana os Estados Unidos têm suas eleições de meio de mandato, e o Brasil entra em 2027 sem acordo comercial com a maior economia do mundo, com dependência crescente da segunda e com um sistema financeiro global que pede mais documentos, demora mais e questiona mais cada transferência que cruza a fronteira. Num mundo que se reorganiza em blocos, a neutralidade deixou de ser uma posição confortável e virou um custo.
Agora a mesa da cozinha. Para quem tem patrimônio no Brasil, a segunda-feira mostrou em um dia o que a erosão costuma fazer em anos: 8% de poder de compra global a menos entre uma manhã e outra, sem que a pessoa tenha feito nada de errado.
Expectativa é o que mais oscila numa economia, e um patrimônio inteiro em reais está exposto a cada uma dessas oscilações. Três semanas atrás ela subiu e a carteira subiu junto; no domingo ela caiu e a carteira caiu 14%, e em nenhum dos dois momentos o dono da carteira decidiu alguma coisa.
Na prática, isso se traduz em dois pontos.
O primeiro é separar o que depende de você do que não depende. Epicteto construiu toda a sua filosofia em cima dessa linha, e ela cabe inteira aqui: a dívida do governo, o Fed, a China, a tarifa americana e a expectativa do mercado estão no lado que não depende de você; a arquitetura do seu patrimônio está no lado que depende. Quem tem uma parte relevante dos ativos custodiada em jurisdição estável e denominada em moeda forte passou a segunda-feira como passou a sexta-feira.
O segundo é não tomar essa decisão no pânico de segunda-feira, do mesmo jeito que não deveria tê-la tomado na euforia de três semanas atrás. Ficar com estrutura ou sair com método; o erro é fazer qualquer um dos dois de forma improvisada.
Eu fiz a minha escolha quando mudei, fiz a saída fiscal e construí minha vida aqui em Miami, e foi a decisão certa para a minha família. Mas a maioria das pessoas que atendo ficou no Brasil, e a diferença entre elas não está em onde moram, está em quanto do patrimônio depende de uma única economia.
A resposta, como sempre, não é sair do Brasil nem desistir dele. É não depender só dele. Os próximos quatro anos serão difíceis dentro e fora, e isso não é motivo para esperar. É o motivo para se estruturar.
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— Daniel Fogaça







