O futuro está vindo na direção do Brasil

Comida, energia limpa, minerais críticos, água e segurança geográfica. São exatamente os cinco itens no topo da lista do que o mundo vai precisar nas próximas três décadas.
Imagem: Gemini.

Sim, o Brasil pode dar certo.

Amanhã o Brasil vota, e eu quero começar esta carta exatamente por aí, com uma afirmação que raramente faço aqui, mas na qual acredito de verdade. Não é esperança ingênua de quem acha que uma eleição resolve um país sozinha. É uma esperança mais sólida, baseada em fatos, em números e numa leitura do que o mundo vai precisar nas próximas décadas, e de onde ele vai buscar.

Nas últimas semanas escrevi sobre risco fiscal, crime organizado, crise do Supremo e a conta que chegou antes da urna. Tudo isso continua verdadeiro. Mas hoje, na véspera da escolha, quero falar do que vejo quando olho para o Brasil de longe, de Miami, com os olhos de quem passa o dia estudando para onde o capital global está indo.

Há alguns dias ouvi o Caio Coppolla, num podcast, dizer uma frase que não me saiu mais da cabeça: o Brasil não está indo em direção ao futuro. É o futuro que está vindo em direção ao Brasil.

Achei a visão incrível. Ela inverte a lógica com que a gente aprendeu a pensar o país: em vez de um Brasil eternamente correndo atrás de um destino que nunca chega, um mundo que, pelas próprias necessidades, vai ter que vir buscar o que só o Brasil tem. Desde então venho testando essa tese contra tudo o que leio sobre as grandes forças que estão redesenhando a economia mundial. E quanto mais eu testo, mais ela se sustenta. Deixa eu mostrar por quê.

Comece pela comida. O planeta vai de oito para quase dez bilhões de pessoas até 2050, e centenas de milhões delas estão saindo da pobreza na Ásia e na África. Quem sai da pobreza come mais proteína, mais grão, mais óleo. Ao mesmo tempo, a Europa perde área agrícola, a China tem menos de 10% da terra arável do mundo para alimentar quase 20% da população, e o Oriente Médio importa quase tudo o que come.

Quem tem terra, água, sol e tecnologia para produzir duas safras por ano no mesmo hectare? O Brasil já é o maior exportador mundial de soja, café, suco de laranja, açúcar e carne bovina. A Embrapa transformou um cerrado que os agrônomos americanos consideravam imprestável na fronteira agrícola mais produtiva do planeta. Isso não é promessa, é um ativo em operação.

Agora olhe para a energia. A inteligência artificial está devorando eletricidade numa escala que ninguém previu. Um único data center de grande porte consome o equivalente a uma cidade média, e as big techs estão reabrindo usinas nucleares e disputando contratos de energia como se fosse ouro. O mundo inteiro precisa de energia abundante, barata e limpa, e quase ninguém tem as três ao mesmo tempo.

O Brasil tem uma matriz elétrica com cerca de 90% de fontes renováveis, quando a média mundial não chega a um terço. Tem hidrelétricas, tem o melhor vento do planeta no Nordeste, tem sol de sobra, tem o pré-sal para a transição e tem o etanol, que o mundo agora descobre como base para combustível de aviação sustentável.

Países que precisam descarbonizar a indústria estão procurando onde produzir hidrogênio verde, o combustível limpo que vai substituir o carvão na siderurgia e o gás nos fertilizantes, e onde instalar data centers movidos a energia renovável. O Brasil está na lista curta de quase todos eles.

Depois, os minerais. A transição energética e a revolução digital são, no fundo, uma corrida por materiais: lítio para baterias, cobre para redes, terras raras para motores e turbinas, nióbio para aços especiais, grafite, níquel, urânio. A China controla o refino de boa parte deles, e o Ocidente acordou tarde para a própria dependência.

O Brasil detém mais de 90% das reservas mundiais de nióbio, tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta, é um dos maiores produtores de ferro, tem lítio em Minas, urânio na Bahia e grafite em quantidade. Os Estados Unidos e a Europa estão assinando acordos de minerais críticos com quem for aliado confiável. Poucos países reúnem tanta coisa em tanto espaço.

Água. Dediquei uma edição inteira a esse tema em fevereiro: a próxima grande disputa geopolítica não será por petróleo, será por água. O Brasil tem algo em torno de 12% da água doce superficial do mundo. Enquanto Califórnia, Espanha, Índia e norte da China racionam, o Brasil discute como usar melhor o que tem de sobra.

E, finalmente, a geopolítica. O mundo está se dividindo em blocos. A globalização baseada só em eficiência acabou, como escrevi em janeiro sobre a nova Cortina de Ferro. Empresas e governos agora perguntam não apenas onde é mais barato produzir, mas onde é mais seguro.

Nesse cenário, um país continental, democrático, sem guerras nas fronteiras há mais de um século, sem disputas territoriais, distante do Estreito de Taiwan, do Mar Vermelho e da Ucrânia, com relação comercial tanto com os Estados Unidos quanto com a China, vale muito mais do que valia há dez anos. O Brasil é, talvez, o maior país do mundo que não precisa escolher um lado para sobreviver.

Junte tudo: comida, energia limpa, minerais críticos, água e segurança geográfica. São exatamente os cinco itens no topo da lista do que o mundo vai precisar nas próximas três décadas. E o Brasil tem todos. Não tem um ou dois. Tem os cinco.

É isso que Coppolla quer dizer quando fala que o futuro está vindo na direção do Brasil. O país não precisa descobrir uma vocação, nem inventar um Vale do Silício, nem virar potência industrial do zero. A demanda já existe, o ativo já existe, e a distância entre os dois está diminuindo a cada ano, por forças que não dependem de nós.

Mas aqui está o ponto que a frase não diz sozinha: o futuro vir na nossa direção não significa que ele vai entrar. Um país pode ter tudo o que o mundo precisa e ainda assim ser deixado de lado, porque o capital que vem buscar comida, energia e minerais não vem buscar só isso. Vem buscar previsibilidade. Vem buscar regras que valem hoje e continuam valendo daqui a dez anos. Vem buscar contratos que são cumpridos, impostos que são compreensíveis, tribunais que decidem com base na lei e não na conveniência, e um Estado que cabe dentro do que arrecada.

O Brasil tem a geografia. O que ainda não decidiu é se vai ter as instituições à altura dela. E essa não é uma decisão que o mercado toma, nem que a Embrapa toma, nem que os ventos do Nordeste tomam. É uma decisão política. E, numa democracia, decisão política começa na urna.

Por isso eu não consigo separar esta carta da eleição de amanhã. Não porque um nome resolva tudo; nenhum resolve. Mas porque o segundo turno é o momento em que o país responde, coletivamente, a uma pergunta anterior a qualquer programa de governo: que Brasil queremos ter? Um que organiza a casa para receber o futuro que está chegando, ou um que continua tão ocupado com suas próprias disputas internas que deixa a oportunidade passar pela porta mais uma vez?

Cada eleição redefine o ponto de partida. Define o grau de responsabilidade fiscal que o país vai tolerar, o nível de segurança que vai exigir, o respeito às regras que vai cobrar de quem governa e de quem julga. E define, sobretudo, a expectativa, porque um país que acredita que pode dar certo cobra diferente, investe diferente, vota diferente na eleição seguinte.

Não sei quem ganha amanhã. O que desejo é que os brasileiros entrem na urna sabendo o tamanho do que está em jogo: não é só um mandato, é se o Brasil vai estar pronto quando o mundo bater na porta. Que a frase “o Brasil é o país do futuro” deixe de ser piada e volte a ser projeto. Um projeto que começa amanhã e precisa ser renovado a cada escolha que vier depois.

Eu saí do Brasil, mas o Brasil nunca saiu de mim. Moro nos Estados Unidos, construo minha vida aqui, mas meu desejo mais sincero é ver o país em que nasci encontrar o futuro que já está vindo na sua direção. E abrir a porta.

Boa votação a todos que votam. E boa semana a todos nós.

Um abraço,
Daniel Fogaça

P.S.: O futuro do Brasil se decide amanhã. O da sua família não precisa esperar por isso. Se você quer internacionalizar parte do seu patrimônio e não sabe por onde começar, agende uma conversa com um especialista do meu time. Em 30 minutos você sai com um diagnóstico da sua situação e os próximos passos.

Sobre o Autor

COMPARTILHE

Diagnóstico Patrimonial

Uma hora para transformar seu patrimônio em números claros.

É a primeira etapa do nosso método. Você entende onde está hoje, onde quer chegar e o que precisa acontecer no caminho.

Uma hora, online, reservado.

O que ler agora...

O avanço da direita no Brasil e no mundo

Boa parte da América do Sul hoje é governada pela direita. O Brasil, no domingo, deu um passo na mesma direção, ainda que a decisão final só venha no dia 25.

This website uses cookies

We use cookies to personalize content, provide social media features, and analyze our traffic. We also share information about your use of our site with our analytics partners. You can change your preferences at any time. For more information, please see our Privacy Policy and Cookie Policy.