Prefixado a 15%: oportunidade ou armadilha?

Taxa alta mostra quanto o mercado está cobrando para emprestar dinheiro ao governo. E quando esse preço sobe rápido, vale perguntar o que mudou e o que ainda pode mudar.
Imagem: Gemini.

Caro leitor, 

Você abre o aplicativo da corretora e vê um título do Tesouro pagando mais de 15% ao ano, fixo, até 2032. Uma semana atrás, a taxa era menor. No grupo da família, alguém comenta que está colocando tudo ali, porque “15% garantido a gente não vê todo dia”.

A reação é natural. Uma taxa dessas chama atenção porque está muito acima da inflação esperada, e dá a sensação de que a porta pode fechar logo.

Só que taxa alta, sozinha, não diz se é boa hora. Ela mostra quanto o mercado está cobrando para emprestar dinheiro ao governo. E, quando esse preço sobe rápido, vale perguntar o que mudou e o que ainda pode mudar.

O que mudou foi o prêmio de risco, que é o extra que o investidor exige para emprestar por muitos anos quando enxerga mais incerteza. Depois do segundo turno, o mercado passou a pedir esse extra em toda a curva, porque ainda não está claro como as contas públicas serão conduzidas.

Os números do cenário ajudam a entender a preocupação. No relatório que a Instituição Fiscal Independente do Senado divulgou em 29 de outubro, a dívida bruta sai de 82,5% do PIB em 2026 para cerca de 98% em 2030 no cenário central, com 38,5% de chance de passar de 100% naquele ano. É um exercício de sensibilidade, não uma previsão, mas mostra a direção. Enquanto a dívida cresce sem um plano visível, o mercado tende a manter o prêmio alto.

Existe ainda um debate público sobre levar a Selic para baixo por decisão, com algum tipo de tabelamento. O Ministério da Fazenda já disse que isso não está em discussão. Ainda assim, convém compreender o risco dessa abordagem.

O Banco Central comanda apenas o juro curto. O juro longo é formado pelo mercado, todos os dias, e depende de confiança.

Quando o juro curto é puxado para baixo sem lastro, o mercado costuma ler como mais inflação e mais risco, e o juro longo sobe. Experimentos desse tipo já deram errado em várias economias. E quanto mais alto o juro longo, mais caro fica para o governo rolar a própria dívida, o que piora justamente a conta que se queria resolver.

Agora, o conceito que decide tudo para quem investe em renda fixa: a marcação a mercado.

Imagine um título que paga R$ 1.000 daqui a três anos, comprado a 15% ao ano. Ele custa cerca de R$ 658. Se você levar até o vencimento, recebe os R$ 1.000, e o que aconteceu com as taxas no meio do caminho não muda esse resultado. Mas o preço do título muda todos os dias, porque ele acompanha a taxa que o mercado pede naquele dia.

Um ano depois, faltam dois anos para o vencimento do título. Se as taxas tiverem subido para 20%, o título vale cerca de R$ 694, uma alta de apenas 5,6% no ano, bem abaixo dos 15% que você contratou. Se tiverem caído para 12%, ele vale cerca de R$ 797, uma alta de 21%.

Quem sente essa oscilação é quem precisa vender no meio do caminho, ou quem olha o extrato e se assusta. Os números são parâmetros ilustrativos, sem impostos e custos, e rentabilidade passada não garante rentabilidade futura.

Esse é o ponto que costuma ficar fora da conversa. Quem carrega o título até o fim e não precisa do dinheiro se importa pouco com a variação.

Em contrapartida, para quem necessita de resgate antecipado ou pretende alocar uma parcela expressiva do patrimônio, é imprescindível estar ciente de que a rentabilidade na venda antecipada sofrerá a influência da marcação a mercado (que pode ser favorável ou desfavorável), sendo imprevisível saber antecipadamente qual será a direção dessa oscilação.

Por que, então, a nossa leitura hoje é de cautela com os prefixados a 15%? Por dois motivos.

O primeiro é que a taxa travada só vence o pós-fixado se a Selic média até o vencimento ficar abaixo dela. Assim, a taxa de 15% nada mais é do que o reflexo do consenso atual, sem embutir qualquer margem de vantagem extra.

O segundo é a assimetria. Se a inflação surpreender, por razões internas ou por fatores externos como guerra e petróleo, o Banco Central pode precisar subir a Selic, e um título travado a 15% pode ficar para trás num mundo de juros a 20%. 

Para o preço subir antes do vencimento, as taxas precisam cair, e isso depende de uma clareza fiscal que, por enquanto, não temos. A visibilidade é pouca e as taxas devem seguir altas por mais tempo, o que deixa pouco espaço no curto prazo para ganho com marcação a mercado.

Diante disso, nossa leitura privilegia o que depende menos de acertar o rumo dos juros. Os pós-fixados acompanham a Selic e atravessam esse período com mais tranquilidade. E, em parcela menor, os títulos atrelados à inflação, as NTN-B, que hoje pagam taxas historicamente atrativas, perto de IPCA mais 8% no vencimento de 2032.

Levado até o fim, esse título protege o capital da inflação e entrega uma taxa real alta. Se a política fiscal e a monetária evoluírem bem, abre-se ainda a possibilidade de uma marcação positiva antes do vencimento. Isso seria uma possibilidade, e não promessa. Lembrando que o título também oscila no caminho até o vencimento..

O crédito privado pede um cuidado à parte. Juros altos por mais tempo apertam o caixa de empresas endividadas.

Neste ano já vimos recuperações judiciais, renegociações e refinanciamentos de dívida, tanto de empresas conhecidas quanto de outras que quase nunca aparecem no noticiário. Escolher crédito a dedo, atraído pelo spread, fica mais arriscado quando o juro alto parece estrutural.

Spread alto é o preço de um risco que muitas vezes não está visível.

Nada disso é recomendação para o seu patrimônio. O peso de cada coisa depende do seu prazo, da sua necessidade de liquidez e do tamanho da posição.

Por isso, antes de aplicar um valor relevante em um título prefixado, vale fazer três perguntas.

Eu vou levar até o vencimento sem precisar resgatar?

Se a taxa subir mais dois pontos e o extrato mostrar perda, eu consigo não mexer?

E quanto do meu patrimônio ficaria preso a uma única aposta sobre o rumo dos juros?

Se alguma resposta incomodar, o problema não é o título. É o tamanho da decisão.

15% é uma taxa alta, e o mercado só a oferece quando enxerga risco. A pergunta que protege o patrimônio não é quanto o título paga, e sim o que acontece comigo se a taxa for para 17% ou 20% depois de eu travar.

Antes de perguntar “quanto rende?” um determinado título de renda fixa, vale perguntar: “Quando precisarei desse dinheiro e qual risco estou assumindo para receber essa taxa?”.

Sobre o Autor

COMPARTILHE

Diagnóstico Patrimonial

Uma hora para transformar seu patrimônio em números claros.

É a primeira etapa do nosso método. Você entende onde está hoje, onde quer chegar e o que precisa acontecer no caminho.

Uma hora, online, reservado.

O que ler agora...

This website uses cookies

We use cookies to personalize content, provide social media features, and analyze our traffic. We also share information about your use of our site with our analytics partners. You can change your preferences at any time. For more information, please see our Privacy Policy and Cookie Policy.