5 frases de Charlie Munger que podem melhorar suas decisões

Você se acha um investidor esperto? Charlie Munger passou a vida mostrando que isso importa bem menos do que parece.
Imagem: Gemini.

Você se acha um investidor esperto? Charlie Munger passou a vida mostrando que isso importa bem menos do que parece.

E pouca gente teria mais autoridade para dizer isso. Munger entrou em Harvard sem ter concluído a graduação, formou-se em Direito com distinção, lia o tempo todo e passou décadas ao lado de Warren Buffett na Berkshire Hathaway. Mesmo assim, quando o assunto era o que separa quem prospera de quem tropeça com dinheiro, quase nunca falava de genialidade. Falava de coisas tão simples que muita gente ouve, acha óbvio e segue em frente.

Ele também era econômico nas palavras. Nas assembleias da Berkshire, Buffett respondia a uma pergunta, às vezes por vários minutos, e depois se virava para o sócio sentado ao lado. Com frequência, ouvia apenas: “Não tenho nada a acrescentar.” A plateia ria. Quando Munger acrescentava, costumava caber em uma ou duas frases. Talvez por isso ele, que morreu em novembro de 2023, a poucas semanas de completar 100 anos, tenha se tornado um dos homens mais citados do mundo dos investimentos.

Só que existe algo estranho nisso tudo. Quase ninguém discorda do que Munger dizia, e pouquíssima gente age como ele recomendava. Poor Charlie’s Almanack, a coletânea de palestras dele, é um dos livros que mais influenciaram a minha forma de pensar sobre decisões, e é justamente por isso que essa distância me incomoda. Entre concordar com uma ideia e usá-la numa segunda-feira ruim existe um espaço enorme, e é nesse espaço que boa parte dos resultados se decide.

Então resolvi fazer um exercício com 5 ideias dele. Para cada uma, a pergunta foi a mesma: o que muda, na prática, na vida de quem já construiu patrimônio e precisa tomar decisões sobre ele? Desconfio que pelo menos uma vai fazer mais falta na sua carteira do que você imagina.

### Pergunte quem ganha com a sua decisão

“Mostre-me o incentivo e eu mostro o resultado.”

Essa talvez seja a frase mais famosa associada a Munger. A ideia por trás dela ocupa boa parte da palestra mais conhecida dele, sobre a psicologia do erro humano, apresentada em Harvard em 1995: as pessoas respondem a incentivos com uma força que quase sempre subestimamos. E o mais curioso é que fazem isso de boa-fé. Ninguém precisa ser desonesto para ter o julgamento entortado por aquilo que ganha.

Na prática, isso vira 3 perguntas simples diante de qualquer recomendação. Como essa pessoa é remunerada? O que ela ganha se eu disser sim? O que ela perde se eu disser não?

As respostas não tornam a recomendação boa ou ruim. Elas só mostram em que direção vale a pena desconfiar um pouco mais.

E tem um detalhe que pouca gente aplica: as mesmas perguntas valem para nós. Quem acabou de comprar um ativo tem um incentivo emocional enorme para encontrar boas notícias sobre ele. Quem passou anos defendendo uma tese nos almoços de família tem incentivo para não admitir que ela deixou de fazer sentido. Os nossos incentivos internos não aparecem em contrato nenhum, mas funcionam do mesmo jeito.

### Faça a conta da queda em reais

Em 2009, numa entrevista à BBC, Munger lembrou que era a terceira vez que via as ações da Berkshire caírem cerca de 50% do topo ao fundo. E completou: “Se você não está disposto a reagir com serenidade a uma queda de 50% no preço das suas ações 2 ou 3 vezes por século, você não está apto a ser acionista e merece o resultado medíocre que vai ter.”

A frase é dura, e tenho uma leitura um pouco mais generosa dela. Temperamentos são diferentes. Ben Carlson, gestor americano e leitor assumido de Munger, escreveu que discorda dele exatamente nesse ponto: nem todo mundo consegue atravessar uma queda dessas sem que ela contamine as decisões. A lição que tiro da frase é conhecer o próprio temperamento e dimensionar o risco de acordo com ele, em vez de fingir uma frieza que talvez não exista.

E aqui entra a dica prática. Percentual é abstrato. Dinheiro, não.

Pense num exemplo hipotético: uma carteira de R$ 4 milhões com 35% em ações. Uma queda de 50% na parte de renda variável significa R$ 700 mil a menos no extrato. Faça essa conta com os seus números, escreva o resultado num papel e pergunte com honestidade: o que eu faria vendo isso? Se a resposta sincera for vender, é muito melhor ajustar a exposição agora, com calma, do que descobrir o próprio limite no meio da queda.

Quem investe em ações há tempo suficiente (no meu caso, são mais de 20 anos) sabe que essas quedas fazem parte do caminho. Elas voltam de tempos em tempos, sem aviso, e a única coisa que dá para escolher é como estaremos posicionados quando vierem.

### Escolha a sua régua

Munger tinha uma implicância especial com a inveja. Numa assembleia da Wesco, em 2003, disse que se incomodar com alguém ganhando dinheiro mais rápido que você é um pecado capital, e que a inveja é um pecado estúpido, porque é o único com o qual não dá para se divertir. Muita dor e nenhuma diversão, resumiu.

No mundo dos investimentos, a inveja raramente se apresenta com esse nome. Ela costuma aparecer disfarçada de oportunidade. O amigo que multiplicou o dinheiro com uma aposta, o conhecido que só fala do fundo que rendeu o dobro do seu, o vizinho que comprou a ação certa na hora certa. De repente, uma carteira perfeitamente adequada aos seus objetivos começa a parecer tímida.

A carteira continua igual. Quem mudou foi a régua.

Sempre achei essa comparação injusta por natureza, porque a gente compara o próprio bastidor com a vitrine dos outros. Ninguém conta, no churrasco, a aposta que deu errado.

Duas práticas ajudam. A primeira é ter a sua régua por escrito: quanto o seu patrimônio precisa render acima da inflação para cumprir o que você espera dele, e para quê. Com essa referência definida, o ganho do outro perde boa parte da relevância. A segunda é uma pergunta-filtro antes de qualquer movimento motivado pelo resultado de alguém: eu teria vontade de fazer isso se ninguém que eu conheço tivesse ganhado dinheiro com isso?

### Tenha uma pilha de difícil demais

“Temos 3 cestas: sim, não e difícil demais”, explicou Munger em outra assembleia da Wesco, em 2002. Se não houvesse um entendimento especial sobre o negócio, a decisão ia direto para a terceira.

O que me encanta nessa ideia é a permissão que ela dá. Um dos homens mais preparados do mercado admitia, com toda a naturalidade, que a maior parte das oportunidades simplesmente não era para ele. Não precisava ter opinião sobre tudo.

Para quem tem patrimônio relevante, isso é especialmente útil, porque é justamente quem mais recebe propostas: a estrutura com nome sofisticado, o produto com prospecto de 80 páginas, a tese que exige acreditar em 4 coisas ao mesmo tempo.

A regra prática pode ser esta: se eu não consigo explicar em 3 frases como esse investimento ganha dinheiro, o que pode dar errado e como faço para sair dele, a decisão vai para a pilha do difícil demais. Isso não significa um não definitivo. Significa apenas que, por enquanto, falta entendimento para dizer sim.

Isso conversa com algo em que acredito muito. Sofisticação técnica não compensa um comportamento ruim, e reconhecer o limite do que a gente entende é uma das formas mais subestimadas de proteger patrimônio.

### Ganhe o direito de ter uma opinião

Munger dizia, em diferentes versões, que não se permitia ter opinião sobre um assunto sem conhecer o argumento do lado contrário melhor do que as próprias pessoas que o defendem.

Parece um padrão alto demais, e é. Mas o valor está justamente no atrito que ele cria. Quase todo mundo pesquisa para confirmar o que já pensa. O exercício de Munger obriga a fazer o caminho oposto.

Na prática: antes de uma decisão grande, como vender um ativo que você tem há anos, concentrar uma parte relevante do patrimônio ou mudar de estratégia, escreva um parágrafo com o melhor argumento contra o que você está prestes a fazer. Escreva como se fosse a pessoa mais inteligente que discorda de você. Se o parágrafo sair fraco, provavelmente você ainda não está pronto para decidir.

Eu gostaria de ter levado esse filtro mais a sério nos meus primeiros anos como investidor, quando girava a carteira mais do que devia. Olhando para trás, tenho a impressão de que teria mantido alguns bons ativos por muito mais tempo, e o patrimônio teria agradecido.

### Um pouco mais sábio

Em 2007, aos 83 anos, Munger fez um discurso de formatura na faculdade de Direito da USC. Contou que via pessoas subirem na vida sem serem as mais inteligentes, às vezes nem as mais esforçadas, mas que eram máquinas de aprender: iam para a cama toda noite um pouco mais sábias do que quando tinham acordado. E isso ajuda muito, completou, principalmente quando se tem um longo caminho pela frente.

Gosto de pensar nas frases dele dessa maneira. Nenhuma funciona como fórmula, e nenhuma resolve sozinha o problema de investir bem. Elas começam a funcionar quando viram hábito, aplicado de forma repetida, quase sem graça, até mudar a qualidade das decisões.

Por isso a minha sugestão é modesta. Não tente aplicar as 5. Escolha uma, transforme numa regra escrita e deixe num lugar onde você vá encontrá-la no dia em que a bolsa cair, o amigo ligar contando do ganho ou o produto bonito chegar no seu e-mail. Uma citação na parede não segura ninguém nesse dia. Uma regra decidida com calma tem muito mais chance.

Sobre isso, Munger provavelmente não teria nada a acrescentar.

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