Quase todo investidor experiente sabe citar Warren Buffett de cor, mas frase decorada não protege patrimônio nenhum quando o mercado despenca.
O que protege é transformar essas frases em regras de comportamento, e a melhor pista de como fazer isso Buffett deixou num lugar inesperado: o próprio testamento.
Em 2013, na carta anual aos acionistas da Berkshire Hathaway, ele contou o que deixou determinado para o dinheiro que vai sustentar a esposa depois da morte dele.
A instrução ao responsável pela herança cabia em uma linha: 90% em um fundo de índice S&P 500 de custo muito baixo e 10% em títulos públicos de curto prazo.
Pensa comigo no que isso significa. O homem que muita gente considera o maior investidor da história, alguém que passou a vida escolhendo empresas melhor do que quase todo mundo, olhou para o patrimônio destinado à pessoa mais próxima dele e escolheu o caminho mais simples que existe.
Nada de ações escolhidas a dedo, nada de estrutura sofisticada, nada de tentar encontrar o próximo Buffett.
Faço uma ressalva antes de seguir. Aquela alocação foi pensada para uma beneficiária específica, com um patrimônio muito acima de qualquer necessidade de consumo, e não serve como receita para ninguém copiar. O que me interessa ali é a lógica por trás da escolha.
A justificativa do próprio Buffett foi que aquela política simples tenderia, ao longo do tempo, a superar os resultados da maioria dos investidores que pagam caro por gestão.
A minha leitura, e aqui é interpretação minha, vai um pouco além: ele estava protegendo o patrimônio da família contra o risco que melhor conhecia, que são as decisões humanas tomadas no calor do momento.
Essa, para mim, é a melhor porta de entrada para ler Buffett.
As cartas que ele escreveu durante décadas costumam ser citadas como um manual de seleção de ações, mas quem as lê com atenção encontra muito mais sobre comportamento do que sobre planilha.
Separei 5 frases conhecidas dele e, para cada uma, uma forma concreta de colocá-la em prática.
1. Temperamento pesa mais do que inteligência
Em uma entrevista à BusinessWeek, em 1999, Buffett disse que, a partir de um nível comum de inteligência, o sucesso nos investimentos deixa de ter relação com QI. Daí em diante, segundo ele, o que você precisa é de “temperamento para controlar os impulsos” que colocam as outras pessoas em apuros.
Confesso que essa frase me conforta. Nunca me vi como um gênio técnico, e mais de 20 anos investindo me convenceram de que sofisticação raramente compensa um comportamento ruim.
Na prática: identifique os 2 ou 3 impulsos que mais custaram caro a você no passado. Vender depois de uma queda forte, comprar algo porque todo mundo estava comprando, mexer na carteira por tédio. Para cada um, crie um freio simples.
Um dos mais eficazes é um prazo obrigatório de espera: nenhuma movimentação fora do planejado antes de 72 horas, e nenhuma antes de você escrever em uma frase por que ela faz sentido. Impulso não costuma sobreviver bem à espera, e sobrevive ainda pior ao papel.
2. Medo e ganância são contagiosos
A frase mais repetida de Buffett apareceu na carta de 1986, escrita no início de 1987: ter “medo quando os outros estão gananciosos e ganância quando os outros têm medo”. Ele comparava as duas emoções a doenças altamente contagiosas, com surtos impossíveis de prever.
O detalhe que quase sempre fica de fora é a frase anterior. Buffett escreveu que nunca tentava antecipar a chegada ou a partida de nenhuma das duas. Ele não estava ensinando a acertar o momento do mercado. Estava descrevendo uma forma de não se deixar contaminar. Na mesma carta, inclusive, admitiu não ter a menor ideia se a bolsa iria subir, cair ou andar de lado. Poucos meses depois veio a Segunda-feira Negra de outubro de 1987, quando o Dow Jones caiu 22,6% em um único dia. Ele não tinha cravado a data. Apenas não estava tomado pela euforia quando a conta chegou.
Na prática: escreva hoje, com calma, o que você vai fazer se o seu patrimônio financeiro cair 20% ou 30%.
Quais ativos você mantém, o que rebalanceia, qual reserva garante que você não precise vender nada no pior momento. Esse documento parece inútil em dias tranquilos e vale muito quando o noticiário fica assustador, porque aí você já não está decidindo com medo.
Está apenas cumprindo o que decidiu com lucidez. O mesmo vale no sentido oposto: quando todos ao redor comemoram, é hora de conferir se alguma posição cresceu além do que você aceitaria em um plano feito do zero.
3. Saber o que você não sabe
Na carta de 1992, Buffett escreveu que, para a maioria das pessoas, o que conta não é o quanto elas sabem, e sim “quão realisticamente definem o que não sabem”. Anos depois, ele deu nome a essa ideia: círculo de competência. O tamanho do círculo importa pouco. Conhecer as bordas dele importa muito.
Talvez esse seja o conselho mais subestimado da lista. Carteiras de investidores experientes costumam acumular produtos que chegaram por indicação, por oportunidade ou pela insistência de alguém, e que depois de alguns anos ninguém mais consegue explicar direito.
Na prática: faça o teste do parágrafo. Para cada investimento relevante, escreva um parágrafo curto respondendo o que é aquilo, de onde vem o retorno, o que pode dar errado e qual função ele cumpre no seu patrimônio. Se o parágrafo não sair, você encontrou uma borda.
Isso não significa vender no dia seguinte. Significa que existe ali uma decisão pendente: entender melhor ou reduzir o peso de algo que está fora do seu círculo.
Na mesma carta, aliás, Buffett lembra que o investidor precisa acertar poucas coisas, desde que evite os grandes erros.
Posições que você não entende são um bom lugar para eles nascerem.
4. Previsões dizem mais sobre quem prevê
Em 1980, no meio de uma explicação sobre o mercado de títulos, Buffett abriu um parêntese que envelheceu muito bem. Disse que previsões de curto prazo para ações e títulos são inúteis, e que elas “podem dizer muito sobre quem prevê, mas nada sobre o futuro”.
Nunca acreditei muito em gurus, e essa frase resume bem o motivo. Não porque as pessoas que fazem previsões sejam desonestas ou despreparadas, mas porque o número de variáveis fora do alcance de qualquer um é grande demais.
Na prática: troque a pergunta. Em vez de “o que vai acontecer com os juros, o dólar ou a bolsa?”, pergunte “o que eu faço se isso acontecer, e o que eu faço se acontecer o contrário?”. A primeira pergunta coloca você no papel de adivinho.
A segunda, no papel de quem se prepara. Vale também um exercício simples: anote as previsões que chamarem sua atenção nos próximos meses e volte a elas daqui a 1 ano. A frase de Buffett costuma se confirmar sozinha.
5. Para sempre, com uma condição
Na carta de 1988, Buffett escreveu que o período de manutenção favorito dele é “para sempre”. A frase virou slogan e, no caminho, perdeu a condição que vinha antes: isso valia para participações em empresas excepcionais, com gestões excepcionais.
Em 2016, ele próprio esclareceu que a Berkshire nunca assumiu o compromisso de manter qualquer ação para sempre.
Na mesma passagem de 1988 existe uma observação que considero ainda mais valiosa. Buffett se descreve como o oposto de quem corre para vender e embolsar o lucro quando a empresa vai bem, mas se agarra teimosamente aos negócios que decepcionam.
Esse comportamento tem nome nas finanças comportamentais: efeito disposição, descrito por Hersh Shefrin e Meir Statman em 1985. A gente vende cedo o que deu certo para sentir o prazer do ganho e segura o que deu errado para não ter que admitir a perda.
Reconheço uma variação desse erro na minha própria história. Nos meus primeiros anos como investidor, eu comprava bons ativos e depois me desfazia deles para trocar por outros. Não consigo apontar uma grande perda isolada, mas tenho convicção de que teria acumulado mais patrimônio se tivesse mantido vários deles.
Hoje penso no prazo de um bom ativo como penso no prazo de uma amizade: indeterminado, enquanto continuar fazendo sentido.
Na prática: tire o preço de compra da decisão.
Para cada ativo, pergunte se você o compraria hoje, pelo motivo original, sabendo tudo o que sabe agora. Se a resposta for sim, o fato de ele ter subido não é motivo para vender. Se a resposta for não, o fato de ele ter caído não é motivo para manter.
Voltando à carta de 2013. Quando escreveu as instruções para o dinheiro da esposa, Buffett não usou nenhuma das habilidades que o tornaram famoso.
Usou outra, menos celebrada: saber o que de fato protege um patrimônio ao longo do tempo. As 5 frases acima apontam para a mesma direção.
O jogo de longo prazo costuma premiar menos quem sabe mais e mais quem erra menos quando as emoções apertam.
Se eu tivesse que escolher uma única regra desta lista para começar, ficaria com o documento escrito num dia calmo sobre o que fazer num dia de pânico. É a mais simples de todas, e talvez por isso seja tão fácil de adiar.







