Na quarta-feira, 7 de outubro, ao pôr do sol em Atenas, Marco Rubio subiu à colina onde os atenienses se reuniam para votar há 2.500 anos e falou por quase meia hora com o Partenon às costas. O secretário de Estado americano poderia ter falado de tarifas, de guerra ou de eleição. Preferiu dizer algo que quase ninguém na vida pública tem coragem de dizer em voz alta: que a civilização ocidental é grande, e que não precisamos pedir desculpas por isso.
Fazia muito tempo que um discurso não me fazia parar para pensar desse jeito.
Rubio começou pela própria Acrópole. Há quase 2.500 anos, o exército persa queimou tudo o que havia naquela colina. Os atenienses voltaram, enterraram as ruínas e, em cima delas, ergueram o Partenon, que está de pé até hoje. Para ele, essa imagem resume quem nós somos: um povo que, diante das cinzas, constrói algo maior do que aquilo que perdeu.
Dali ele contou a história inteira em poucos minutos. Os gregos nos deram a democracia e a filosofia, mas deram, acima de tudo, um jeito de olhar para o mundo: a curiosidade pelo desconhecido, a recusa da palavra impossível, a ideia de que vale a pena buscar a excelência em tudo o que se faz. Esse espírito passou por Roma, atravessou o Cristianismo, levantou as catedrais da Europa, cruzou oceanos em navios de madeira e, séculos depois, levou o homem à Lua. É a mesma chama, passando de mão em mão.
Nada disso teria acontecido numa civilização que aceitasse a mediocridade como destino. Rubio usou uma imagem simples: os homens que fizeram o Partenon construíam para cima. Queriam ser os melhores e não tinham vergonha disso. Falou também de coragem, de honra e de dever, das pessoas que continuam fiéis à sua palavra justamente quando isso custa mais caro.
Depois veio a parte que mais me marcou. Segundo ele, em algum momento nós passamos a ter vergonha justamente do que nos tornou excepcionais. A prosperidade virou motivo de culpa. Ensinamos os filhos a desconfiar da própria história. E começamos a construir para baixo, mais preocupados em garantir que ninguém perca do que em permitir que alguém vá longe.
Não leio isso como um discurso de partido, e não estou aqui para falar de política. O que me tocou foi outra coisa: ouvir alguém falar da nossa herança com orgulho, com admiração e com confiança no futuro. “A história da nossa civilização é a maior história já conhecida pelo homem”, disse ele. Há quanto tempo você não ouve uma frase assim sem que ela venha acompanhada de um pedido de desculpas?
E essa história também é nossa. O Brasil fala uma língua que nasceu do latim, vive sob leis que vieram de Roma e foi formado, em boa parte, pela mesma fé que levantou aquelas catedrais. Somos herdeiros dessa construção tanto quanto qualquer europeu ou americano. Às vezes parece que esquecemos disso.
Penso em quem me lê toda semana. Gente que abriu empresa, gerou emprego, criou filhos e construiu patrimônio num país que raramente facilita. Você conhece bem esse clima em que prosperar parece exigir justificativa. Quem passou a vida construindo para cima não deve desculpas a ninguém. Deve, isso sim, continuar construindo, e cuidar para que aquilo que ergueu chegue inteiro à próxima geração.
Porque herança não é só o que se recebe. É o que se defende e o que se passa adiante. Os gregos receberam ruínas e entregaram o Partenon. Cada geração depois deles recebeu alguma coisa e teve de decidir se ia apenas gastar ou se ia acrescentar. A nossa não é diferente, e essa decisão vale tanto para uma civilização quanto para uma família.
E vale, acima de tudo, para um país. Rubio disse em Atenas que o Ocidente chegou a uma encruzilhada, e que as decisões da próxima década vão escrever a história do próximo século. O Brasil está na sua. Daqui a oito dias voltamos às urnas para o segundo turno, e eu não vou dizer em quem votar. O que me interessa é a pergunta que está por trás do voto e que vai continuar de pé depois dele: que país queremos ser daqui a vinte ou trinta anos? Um país que volta a ter orgulho da própria história, que admira quem produz, que cobra excelência de si mesmo e tem ambição de grandeza, ou um país que se acostuma a ser menos do que pode ser? O Brasil tem tamanho, gente e recursos para construir para cima. O que nos falta decidir é se queremos.
Rubio deixou um aviso no meio da fala, e é com ele que eu fico: “Ou escolhemos agir agora, ou perdemos a escolha de agir.” Ele falava de nações. Eu ouvi como pai de dois meninos, que sabe que aquilo de que ninguém cuida acaba se perdendo. O declínio raramente chega com um exército. Chega quando a gente para de acreditar que vale a pena construir.
Se você puder, assista ao discurso inteiro. São menos de trinta minutos, e valem cada um deles.
Recebemos muito. Cabe a nós defender o que recebemos e construir o que ainda falta. A maior história já conhecida pelo homem ainda não terminou, e o próximo capítulo depende do que cada um de nós decidir erguer.
Daniel Fogaça







