Na segunda-feira depois do segundo turno, a Bolsa caiu 14% e o dólar subiu mais de 8%. Foi um daqueles dias em que muita gente abre o aplicativo do banco três vezes antes do almoço.
Na semana passada, escrevi sobre o dinheiro que fica parado “até o cenário clarear”. Na segunda, quem tinha esse dinheiro se sentiu esperto, e quem tinha mais ações, nem tanto. Só que acertar uma semana diz pouco. A pergunta útil agora é outra: o que aconteceu na segunda muda alguma coisa nos seus planos?
Para responder, dá para fazer quatro contas. Nenhuma exige planilha complicada.
1. Quanto você perdeu de verdade
O índice caiu 14%. Sua carteira, provavelmente, caiu bem menos.
Imagine um executivo de 56 anos com R$ 3 milhões investidos. Ele quer parar de trabalhar aos 60 e viver com R$ 15 mil por mês. A carteira dele tem R$ 1,65 milhão em renda fixa (55%), R$ 1,05 milhão em ações brasileiras (35%) e R$ 300 mil em investimentos no exterior, em dólar (10%).
Se as ações dele caíram como o índice, a parte brasileira perdeu R$ 147 mil. A parte no exterior ganhou cerca de R$ 24 mil só com a alta do dólar. Para simplificar, vamos considerar que a renda fixa ficou parada.
Resultado: o patrimônio foi de R$ 3 milhões para R$ 2,877 milhões. A queda foi de 4,1%.
Vale fazer essa conta com os seus números antes de qualquer decisão. O índice mede a Bolsa, e o que importa para você é o patrimônio inteiro. Se você tem títulos de prazo longo, como Tesouro IPCA+ ou prefixados, inclua esses títulos na conta: eles oscilam quando os juros de longo prazo sobem, e isso costuma acontecer em dias como segunda.
2. Quanto a sua data andou
Para viver com R$ 15 mil por mês retirando 4% ao ano, uma referência comum em planejamento, ele precisa de cerca de R$ 4,5 milhões.
Antes da queda, aportando R$ 20 mil por mês e com um rendimento de 4% ao ano acima da inflação, ele chegaria lá em 47 meses. Depois da queda, chega em 51.
A segunda-feira empurrou a aposentadoria dele em quatro meses. E essa conta supõe que a Bolsa não recupere nada do que caiu. Se recuperar, a data volta para onde estava.
Para dimensionar esse número: se ele tivesse todo o patrimônio em ações brasileiras, o atraso seria de 15 meses. A distância entre 4 e 15 meses é o que a diversificação fez por ele na segunda.
E se ele aumentar o aporte de R$ 20 mil para R$ 25 mil por mês, chega à meta três meses antes da data original. Se decidir viver com R$ 14 mil em vez de R$ 15 mil, chega quatro meses antes. A queda mexeu pouco na data dele. As decisões que estão sob o controle dele mexem mais.
3. Para quem já vive do patrimônio, a conta é outra
Para quem ainda acumula, a queda tem um lado bom: cada aporte compra cerca de 16% mais cotas do que comprava na semana anterior.
Para quem já saca, acontece o contrário. Pense num casal de 63 anos, aposentado, com R$ 4 milhões e saques de R$ 15 mil por mês. Se precisar vender ações para pagar as contas, cada R$ 15 mil sacados agora consome cerca de 16% mais cotas. E essas cotas não vão estar na carteira quando a Bolsa se recuperar.
Isso tem nome: risco de sequência. Para mostrar o tamanho dele, simulei dois casais idênticos, com o mesmo patrimônio, o mesmo saque e os mesmos retornos ao longo de dez anos. A única diferença é a ordem. O primeiro casal enfrenta uma queda de 14% no primeiro ano, e o segundo, no último. Depois de dez anos, o segundo casal tem R$ 285 mil a mais. A diferença veio só da ordem em que os anos bons e ruins aconteceram.
A proteção contra isso é simples de entender: um colchão. É a parte do patrimônio aplicada em investimentos de baixa oscilação e com liquidez, separada para pagar alguns anos de despesas. Se o casal tiver R$ 800 mil em renda fixa pós-fixada, são 53 meses de saques sem vender nenhuma ação. Para recuperar uma queda de 14%, a Bolsa precisa subir 16,3%. Se isso demorar, o casal atravessa o período sem vender na baixa.
4. Se a carteira saiu do lugar
Com a queda, as ações do executivo passaram de 35% para 31,4% da carteira, e o exterior subiu para 11,3%.
Quem tem uma regra de rebalanceamento já sabe o que fazer. Uma regra comum é agir só quando uma classe se afasta mais de 5 pontos percentuais do alvo. Por essa régua, 31,4% ainda está dentro da faixa e ele não precisa mexer em nada. Se estivesse fora, voltar aos 35% significaria comprar cerca de R$ 104 mil em ações, de preferência em etapas e usando primeiro os aportes novos.
Comprar justamente o que acabou de cair é desconfortável. Por isso a regra é definida antes, com calma. Quem não tem regra acaba decidindo pelo humor do dia, e o humor de uma segunda-feira com circuit breaker raramente ajuda.
O que fazer nesta semana
Antes de mexer em qualquer coisa, responda a cinco perguntas:
1. Quanto o meu patrimônio total caiu, em reais e em porcentagem?
2. Quantos meses a minha data de independência andou, mantendo aportes e gastos?
3. Quantos meses de despesas eu tenho fora de investimentos que oscilam? Para quem já vive do patrimônio ou pretende parar nos próximos anos, muitos planejadores trabalham com algo entre dois e cinco anos.
4. Alguma classe de investimento saiu da faixa que eu tinha definido?
5. Meu objetivo mudou, ou só o preço mudou?
Se as respostas forem “pouco”, “poucos meses”, “vários anos”, “não” e “só o preço”, o mais provável é que a decisão certa seja não fazer nada. Isso também é uma decisão, e das mais difíceis de tomar num dia como segunda.
Se alguma resposta incomodou, principalmente a terceira, é ali que vale agir. Muitas vezes o ajuste vem pelos aportes e resgates dos próximos meses, que podem recompor o colchão sem vender o que acabou de cair.
A Virada Patrimonial, o momento em que o patrimônio passa a sustentar a vida sem depender do trabalho, não se decide numa segunda-feira. Ela se constrói ao longo de anos, e um dia ruim mexe pouco nela quando o plano tem colchão, regra e uma data calculada.
Se você não consegue responder a essas cinco perguntas com os seus números, o diagnóstico patrimonial gratuito faz essas contas com você e mostra se a sua data mudou.
Tiago Machado
GuiaInvest Wealth







