Por Que o Mercado Tende a Subir Quando Washington “Trava”?

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos frequentemente resultam em um governo dividido, no qual o Executivo e o Legislativo são controlados por partidos opostos.
Imagem: Gemini.

Imagine dois capitães tentando pilotar o mesmo navio, mas com uma regra peculiar, um deles controla o leme e a rota de navegação, enquanto o outro segura as chaves da sala de máquinas e o orçamento do combustível.

Para quem observa do cais, a cena parece a receita perfeita para o desastre. No entanto, se o objetivo dos passageiros for evitar manobras bruscas e garantir que a embarcação siga em linha reta sem surpresas tributárias ou fiscais, ter dois capitães discordando sobre cada mudança de direção pode ser, paradoxalmente, a situação mais previsível e segura de todas.

À medida que nos aproximamos das eleições de meio de mandato (midterm elections) de 2026 nos Estados Unidos, os portais de notícias internacionais descarregam uma enxurrada diária de manchetes alarmistas sobre os impactos de uma potencial “virada política” nas bolsas globais.

Porém, uma das maiores habilidades de quem gere patrimônio em moeda forte é saber separar o barulho eleitoral da verdadeira engrenagem do mercado internacional.

Quando investidores olham para as eleições de meio de mandato, a pergunta errada costuma dominar as conversas: “O que acontece com as ações se a oposição vencer?”

Essa pergunta parte de uma premissa equivocada porque assume que uma vitória da oposição no Congresso significaria uma mudança radical no comando do país. A realidade institucional americana é muito mais sutil.

Mesmo que as enquetes recentes do Pew Research Center apontem para uma vantagem do Partido Democrata no voto genérico, impulsionada por uma base mais atenta à campanha e pela insatisfação generalizada dos eleitores com o custo de vida, moradia e combustíveis, o cenário mais provável de uma vitória da oposição não é uma reviravolta ideológica.

O resultado prático é a consolidação de um governo dividido (gridlock).

    Fonte: Pew Research Center

Donald Trump permanecerá na Casa Branca até janeiro de 2029. Portanto, o que está em disputa nas urnas não é a troca do Chefe do Executivo, mas sim a criação de um freio legislativo. Compreender como essa divisão de poderes afeta os juros das Treasuries, o S&P 500 e os fluxos de capital global é fundamental para quem busca proteger e rentabilizar a carteira internacional com maturidade.

Expectativa popular: Vitória da Oposição ➔ Virada Total de Política e Incerteza

Realidade institucional: Governo Dividido (Gridlock) ➔ Redução do Risco de Cauda ➔ Possibilidade de um mercado menos avesso ao risco 

Para avaliar os impactos reais na sua alocação, precisamos abrir o mapa de competências e separar o que de fato muda de mãos do que permanece intocado sob a caneta da Casa Branca:

  • O que quase não muda (Domínio do executivo): A ferramenta econômica mais temida e acompanhada pelo mercado internacional, as tarifas comerciais, permanece sob controle estrito do Presidente. Amparadas por leis de emergência econômica (como a IEEPA), as diretrizes tarifárias, a política externa e a gestão de fronteiras não dependem do Congresso. Uma vitória da oposição no Capitólio não tem o poder de simplesmente revogar decretos tarifários.
  • O que muda de fato (Domínio do legislativo): O Congresso segura a chave do cofre. Com a oposição no comando da Câmara ou do Senado, a aprovação de novos pacotes de estímulo, cortes adicionais de impostos ou a extensão ilimitada do Tax Cuts and Jobs Act (TCJA) entram em um impasse fiscal. O ambiente trava em um status quo, reduzindo a capacidade de gastar.
  • Poder de investigação e convocação (Subpoena Power): A oposição passa a presidir as comissões parlamentares. Isso amplia o ruído político e a abertura de investigações sobre a administração, gerando manchetes diárias, mas raramente causando impactos duradouros nos lucros corporativos.
  • A preservação do Federal Reserve: Uma Câmara sob controle da oposição serve como um contrapeso institucional relevante diante de eventuais tentativas do Executivo de pressionar a autoridade monetária, blindando a credibilidade do dólar e das taxas de juros no cenário global.

Se a teoria sugere que um governo travado paralisa a pauta legislativa, como as bolsas de valores costumam reagir a esse cenário?

A resposta estatística é um dos dados mais contra intuitivos e valiosos da gestão de ativos.

  Fonte: Fidelity

Segundo estudos da Fidelity e do Morgan Stanley abrangendo dados desde 1938, o S&P 500 registrou retornos positivos nos 12 meses seguintes às eleições de meio de mandato em cerca de 95% das vezes, entregando um retorno médio próximo a 14%.

Ano de Midterms (Pré-Eleição) ➔ Incerteza Elevada no Fim do Ciclo ➔ Desempenho Moderado ➔ Pós-Midterms (Qualquer Vencedor) ➔ Clareza do Cenário Político ➔ Valorização Histórica (+14% em média) 

  Fonte: Fidelity

Por que essa valorização acontece com tanta consistência?

A razão não é a preferência por um partido A ou B, mas sim a dramática queda na incerteza de política econômica. O Economic Policy Uncertainty Index, formulado pelo Federal Reserve de St. Louis, costuma renovar picos em anos de eleição.

O mercado financeiro odeia a dúvida e precifica cenários obscuros exigindo prêmios de risco mais altos. Assim que as urnas fecham e as regras do jogo para os dois anos seguintes ficam definidas, principalmente em um ambiente de gridlock, onde grandes pacotes fiscais surpresa se tornam improváveis, os prêmios de risco recuam e as ações passam por um movimento de reprecificação para cima (rerating)

Como bem resumiu a equipe de estratégia da Fidelity: “Markets love gridlock” (Os mercados adoram o impasse legislativo).

Para manter o rigor e a prudência técnica que a preservação de grande patrimônio exige, precisamos olhar para os pontos onde o cenário de governo dividido pode criar faíscas reais na renda fixa e no mercado de títulos:

  • A batalha do teto da dívida e o risco de paralisação (Shutdown): Se por um lado a paralisia barra novos gastos, por outro ela transforma as votações do teto da dívida pública em verdadeiros embates políticos. O risco de paralisações temporárias do governo (government shutdowns) cresce consideravelmente, criando pontas de volatilidade nos títulos do Tesouro americano (Treasuries).
  • Rigidez diante de choques econômicos: Em caso de uma desaceleração econômica inesperada, um Congresso rachado terá imensa dificuldade para aprovar pacotes de apoio fiscal em tempo hábil, deixando todo o trabalho de estímulo nas costas do Federal Reserve.
  • A ilusão de um resultado óbvio: Embora a oposição ostente vantagem no voto genérico, o mapa das cadeiras do Senado em 2026 é geograficamente complexo. Supor com antecedência o formato do Congresso sem calibrar a alocação de risco da carteira é uma postura imprudente.

Tentar alterar posições estruturais em dólar com base em pesquisas eleitorais ou palpites sobre o resultado de eleições de meio de mandato é uma das formas mais eficientes de corroer patrimônio por meio do erro de timing.

Estudos estatísticos da BlackRock apontam que investidores que retiraram capital do mercado para aplicar em caixa sempre que o seu partido político de preferência não estava no poder viram suas rentabilidades de longo prazo caírem praticamente pela metade em comparação àqueles que mantiveram a disciplina e permaneceram investidos.

O verdadeiro risco das midterms não está em qual bandeira ocupará a maioria das cadeiras no Capitólio. O verdadeiro risco é tomar decisões viscerais no auge do ruído e ficar de fora da valorização que historicamente acontece quando a poeira eleitoral assenta.

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