Sim, o Brasil pode dar certo.
Amanhã o Brasil vota, e eu quero começar esta carta exatamente por aí, com uma afirmação que raramente faço aqui, mas na qual acredito de verdade. Não é esperança ingênua de quem acha que uma eleição resolve um país sozinha. É uma esperança mais sólida, baseada em fatos, em números e numa leitura do que o mundo vai precisar nas próximas décadas, e de onde ele vai buscar.
Nas últimas semanas escrevi sobre risco fiscal, crime organizado, crise do Supremo e a conta que chegou antes da urna. Tudo isso continua verdadeiro. Mas hoje, na véspera da escolha, quero falar do que vejo quando olho para o Brasil de longe, de Miami, com os olhos de quem passa o dia estudando para onde o capital global está indo.
Há alguns dias ouvi o Caio Coppolla, num podcast, dizer uma frase que não me saiu mais da cabeça: o Brasil não está indo em direção ao futuro. É o futuro que está vindo em direção ao Brasil.
Achei a visão incrível. Ela inverte a lógica com que a gente aprendeu a pensar o país: em vez de um Brasil eternamente correndo atrás de um destino que nunca chega, um mundo que, pelas próprias necessidades, vai ter que vir buscar o que só o Brasil tem. Desde então venho testando essa tese contra tudo o que leio sobre as grandes forças que estão redesenhando a economia mundial. E quanto mais eu testo, mais ela se sustenta. Deixa eu mostrar por quê.
Comece pela comida. O planeta vai de oito para quase dez bilhões de pessoas até 2050, e centenas de milhões delas estão saindo da pobreza na Ásia e na África. Quem sai da pobreza come mais proteína, mais grão, mais óleo. Ao mesmo tempo, a Europa perde área agrícola, a China tem menos de 10% da terra arável do mundo para alimentar quase 20% da população, e o Oriente Médio importa quase tudo o que come.
Quem tem terra, água, sol e tecnologia para produzir duas safras por ano no mesmo hectare? O Brasil já é o maior exportador mundial de soja, café, suco de laranja, açúcar e carne bovina. A Embrapa transformou um cerrado que os agrônomos americanos consideravam imprestável na fronteira agrícola mais produtiva do planeta. Isso não é promessa, é um ativo em operação.
Agora olhe para a energia. A inteligência artificial está devorando eletricidade numa escala que ninguém previu. Um único data center de grande porte consome o equivalente a uma cidade média, e as big techs estão reabrindo usinas nucleares e disputando contratos de energia como se fosse ouro. O mundo inteiro precisa de energia abundante, barata e limpa, e quase ninguém tem as três ao mesmo tempo.
O Brasil tem uma matriz elétrica com cerca de 90% de fontes renováveis, quando a média mundial não chega a um terço. Tem hidrelétricas, tem o melhor vento do planeta no Nordeste, tem sol de sobra, tem o pré-sal para a transição e tem o etanol, que o mundo agora descobre como base para combustível de aviação sustentável.
Países que precisam descarbonizar a indústria estão procurando onde produzir hidrogênio verde, o combustível limpo que vai substituir o carvão na siderurgia e o gás nos fertilizantes, e onde instalar data centers movidos a energia renovável. O Brasil está na lista curta de quase todos eles.
Depois, os minerais. A transição energética e a revolução digital são, no fundo, uma corrida por materiais: lítio para baterias, cobre para redes, terras raras para motores e turbinas, nióbio para aços especiais, grafite, níquel, urânio. A China controla o refino de boa parte deles, e o Ocidente acordou tarde para a própria dependência.
O Brasil detém mais de 90% das reservas mundiais de nióbio, tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta, é um dos maiores produtores de ferro, tem lítio em Minas, urânio na Bahia e grafite em quantidade. Os Estados Unidos e a Europa estão assinando acordos de minerais críticos com quem for aliado confiável. Poucos países reúnem tanta coisa em tanto espaço.
Água. Dediquei uma edição inteira a esse tema em fevereiro: a próxima grande disputa geopolítica não será por petróleo, será por água. O Brasil tem algo em torno de 12% da água doce superficial do mundo. Enquanto Califórnia, Espanha, Índia e norte da China racionam, o Brasil discute como usar melhor o que tem de sobra.
E, finalmente, a geopolítica. O mundo está se dividindo em blocos. A globalização baseada só em eficiência acabou, como escrevi em janeiro sobre a nova Cortina de Ferro. Empresas e governos agora perguntam não apenas onde é mais barato produzir, mas onde é mais seguro.
Nesse cenário, um país continental, democrático, sem guerras nas fronteiras há mais de um século, sem disputas territoriais, distante do Estreito de Taiwan, do Mar Vermelho e da Ucrânia, com relação comercial tanto com os Estados Unidos quanto com a China, vale muito mais do que valia há dez anos. O Brasil é, talvez, o maior país do mundo que não precisa escolher um lado para sobreviver.
Junte tudo: comida, energia limpa, minerais críticos, água e segurança geográfica. São exatamente os cinco itens no topo da lista do que o mundo vai precisar nas próximas três décadas. E o Brasil tem todos. Não tem um ou dois. Tem os cinco.
É isso que Coppolla quer dizer quando fala que o futuro está vindo na direção do Brasil. O país não precisa descobrir uma vocação, nem inventar um Vale do Silício, nem virar potência industrial do zero. A demanda já existe, o ativo já existe, e a distância entre os dois está diminuindo a cada ano, por forças que não dependem de nós.
Mas aqui está o ponto que a frase não diz sozinha: o futuro vir na nossa direção não significa que ele vai entrar. Um país pode ter tudo o que o mundo precisa e ainda assim ser deixado de lado, porque o capital que vem buscar comida, energia e minerais não vem buscar só isso. Vem buscar previsibilidade. Vem buscar regras que valem hoje e continuam valendo daqui a dez anos. Vem buscar contratos que são cumpridos, impostos que são compreensíveis, tribunais que decidem com base na lei e não na conveniência, e um Estado que cabe dentro do que arrecada.
O Brasil tem a geografia. O que ainda não decidiu é se vai ter as instituições à altura dela. E essa não é uma decisão que o mercado toma, nem que a Embrapa toma, nem que os ventos do Nordeste tomam. É uma decisão política. E, numa democracia, decisão política começa na urna.
Por isso eu não consigo separar esta carta da eleição de amanhã. Não porque um nome resolva tudo; nenhum resolve. Mas porque o segundo turno é o momento em que o país responde, coletivamente, a uma pergunta anterior a qualquer programa de governo: que Brasil queremos ter? Um que organiza a casa para receber o futuro que está chegando, ou um que continua tão ocupado com suas próprias disputas internas que deixa a oportunidade passar pela porta mais uma vez?
Cada eleição redefine o ponto de partida. Define o grau de responsabilidade fiscal que o país vai tolerar, o nível de segurança que vai exigir, o respeito às regras que vai cobrar de quem governa e de quem julga. E define, sobretudo, a expectativa, porque um país que acredita que pode dar certo cobra diferente, investe diferente, vota diferente na eleição seguinte.
Não sei quem ganha amanhã. O que desejo é que os brasileiros entrem na urna sabendo o tamanho do que está em jogo: não é só um mandato, é se o Brasil vai estar pronto quando o mundo bater na porta. Que a frase “o Brasil é o país do futuro” deixe de ser piada e volte a ser projeto. Um projeto que começa amanhã e precisa ser renovado a cada escolha que vier depois.
Eu saí do Brasil, mas o Brasil nunca saiu de mim. Moro nos Estados Unidos, construo minha vida aqui, mas meu desejo mais sincero é ver o país em que nasci encontrar o futuro que já está vindo na sua direção. E abrir a porta.
Boa votação a todos que votam. E boa semana a todos nós.
Um abraço,
Daniel Fogaça
P.S.: O futuro do Brasil se decide amanhã. O da sua família não precisa esperar por isso. Se você quer internacionalizar parte do seu patrimônio e não sabe por onde começar, agende uma conversa com um especialista do meu time. Em 30 minutos você sai com um diagnóstico da sua situação e os próximos passos.







