Se você tem 50 anos, restam 31 verões.
Não é força de expressão. É a tábua de mortalidade do IBGE. Um brasileiro que completa 50 anos tem, em média, mais 30,9 anos pela frente. Quem chega aos 60 tem mais 22,6. Quem chega aos 80, mais 9.
Então, se você tem 50: 31 verões. 31 Natais. 31 aniversários de cada filho.
Se você viaja com a família uma vez por ano, são 31 viagens. Se lê 6 livros por ano, são 186 livros escolhidos entre todos os que já foram escritos. E se os seus pais estão na casa dos 80 e você consegue vê-los 8 vezes por ano, a conta não chega a 80 encontros.
Tudo isso cabe em uma folha de papel, com folga.
Seu extrato de investimentos, provavelmente, não cabe.
De onde vem essa conta
Ela não é minha. Peguei emprestada de um texto publicado em dezembro de 2015 por Tim Urban, no Wait But Why, chamado The Tail End.
Urban tinha 34 anos e fez o exercício em si mesmo. Em vez de medir a vida em anos, mediu em ocorrências.
Supondo que chegasse aos 90, contou pouco menos de 60 invernos pela frente. Como lia 5 livros por ano, restavam uns 300 livros. Como entrava no mar mais ou menos uma vez por ano, restavam 60 mergulhos. Como ia a um jogo do Red Sox a cada 3 anos, sobravam 20 idas ao estádio.
Números grandes, e nenhum deles especialmente perturbador. Essas coisas se distribuem de maneira relativamente uniforme ao longo da vida. Se ele estava em um terço do caminho, estava também em um terço dos livros, dos invernos, das pizzas.
O texto fica desconfortável quando ele aplica a mesma conta a algo que não se distribui de maneira uniforme.
Os pais.
Nos primeiros 18 anos, Urban conviveu com eles em pelo menos 90% dos dias. Depois da faculdade e da mudança de cidade, passou a vê-los uma média de 10 dias por ano. Com os pais na casa dos 60, e sendo bastante otimista quanto à longevidade de todo mundo, estimou uns 30 anos de convivência restante. 10 dias por ano ao longo de 30 anos dão 300 dias.
300 dias no total. Menos do que ele conviveu com eles em qualquer ano isolado da infância.
A conclusão é que, quando se formou no ensino médio, já havia consumido 93% de todo o tempo presencial que teria com os pais na vida inteira. O que restava era o último 5%. Ele já estava na ponta final daquela relação sem ter percebido que havia entrado nela.
Com as irmãs, calculou algo em torno de 15% restante. Com o grupo de amigos do colégio, com quem jogava carta quase todos os dias durante 4 anos, 7%.
As duas curvas
Pensa comigo, porque é aqui que isso deixa de ser uma reflexão sobre a brevidade da vida e vira uma questão patrimonial.
O patrimônio financeiro também não se distribui de maneira uniforme ao longo da vida. Ele é tardio por construção. Quem hoje tem alguns milhões acumulados levou décadas para chegar lá: aportes, reinvestimento, juro sobre juro, um negócio que deu certo, um imóvel que valorizou, uma venda.
A curva do patrimônio é crescente e concentrada na segunda metade da vida. As curvas que Urban descreve andam no sentido contrário. A convivência com os pais, o tempo com os filhos dentro de casa, o corpo disposto para o tipo de viagem que exige disposição. Boa parte desse estoque já foi consumida justamente quando o dinheiro finalmente aparece.
As duas curvas se cruzam em algum ponto e depois seguem em direções opostas. O patrimônio atinge o auge mais ou menos na fase em que várias ocorrências que ele deveria financiar já estão na cauda.
Isso não é um argumento contra poupar. Eu passei perto de 5 anos trabalhando muito com renda pessoal praticamente nula para construir um negócio com meus sócios, e continuo achando que foi a decisão certa.
Trocar presente por futuro é a base de qualquer construção patrimonial séria. O que eu não enxergava direito naquela época era que esse futuro não é um depósito de estoque infinito. Ele também tem contagem.
Onde a atenção do investidor costuma estar
Um investidor experiente é capaz de dedicar 3 semanas para avaliar se troca um fundo com taxa de 1,2% por outro de 0,8%. E faz sentido dedicar. Em um patrimônio de R$ 3 milhões, essa diferença composta ao longo de 20 anos é dinheiro de verdade.
O que quase ninguém faz é a conta do outro lado.
- Quantos verões ainda cabem antes que os filhos deixem de querer viajar com os pais?
- Quantas visitas ainda cabem antes que o deslocamento fique difícil?
- Quantas vezes você ainda vai fazer aquilo que hoje considera trivial só porque acontece toda semana?
São perguntas menos precisas e bem mais desagradáveis. Por isso a planilha ganha a disputa pela nossa atenção. A planilha responde.
E há uma assimetria aqui que vale nomear.
Patrimônio perdido pode, em boa parte dos casos, ser reconstruído. Custa tempo, disciplina e paciência, mas o caminho existe. Uma ocorrência não oferece isso. Não há segunda chance nem mercado secundário. Mesmo assim, a maior parte da energia do investidor experiente vai para a variável reversível.
O que muda na prática
A implicação disso não é sair gastando. Seria uma leitura preguiçosa do argumento, e provavelmente uma leitura cara.
O que muda é a pergunta que se faz ao patrimônio.
Um patrimônio construído apenas para crescer é uma coisa. Um patrimônio que também precisa sustentar decisões com data marcada é outra. Essa diferença aparece em liquidez, em previsibilidade de renda, em quanto do capital está imobilizado em algo que só faz sentido daqui a 15 anos, em eficiência tributária, em estrutura sucessória e naquilo que pode ser resolvido ainda em vida.
São decisões de arquitetura, não de escolha de ativo.
E raramente essa arquitetura foi desenhada. Na maioria dos casos ela foi se formando sozinha. Um investimento comprado em determinado momento por uma razão específica. Outro que apareceu como oportunidade. Um terceiro recomendado pelo banco. O resultado pode ser uma coleção de bons ativos e uma estrutura que nunca foi questionada sobre o que precisa cumprir, e quando.
Se essa pergunta ficou na sua cabeça, ela é exatamente a que sustenta o Diagnóstico Patrimonial Gratuito da GuiaInvest Wealth: uma conversa de aproximadamente 30 minutos com um especialista, sem compromisso, para olhar o patrimônio como conjunto e entender se a estrutura atual conversa com aquilo que ele deveria servir ao longo do tempo.
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Urban encerra o texto dizendo, entre outras coisas, que prioridades importam e que essa lista precisa ser definida por você, e não por inércia. Vale para o tempo. Vale igual para o dinheiro.
A conta dos verões leva 5 minutos e é desconfortável. Eu sugiro fazer mesmo assim. Não porque ela vá dizer o que fazer com o seu patrimônio, mas porque devolve a pergunta que ele deveria estar respondendo o tempo todo: servir para quê, e até quando.







