O mercado acionário brasileiro passou por um agosto marcado por duas fases distintas: expressiva pressão vendedora na primeira quinzena e uma firme reação de alta na segunda metade. Esse ritmo positivo avançou pelos primeiros dias de setembro, impulsionando o Ibovespa novamente rumo ao patamar dos 189 mil pontos.
Na primeira metade de agosto, o índice chegou a acumular queda de cerca de 6,5% em 11 pregões, pressionado por forte saída de capital estrangeiro, juros longos dos EUA nas máximas, petróleo em alta e incertezas fiscais e eleitorais no Brasil. Já na segunda quinzena, o cenário melhorou na margem: Treasuries americanos recuaram das máximas, o petróleo cedeu um pouco, o fluxo estrangeiro diminuiu a pressão vendedora e, principalmente, as pesquisas eleitorais mostraram disputa mais acirrada, o que reduziu o prêmio de risco e sustentou um rali de nove altas seguidas, devolvendo quase toda a perda inicial.
Em setembro, essa dinâmica seguiu favorável: nos primeiros pregões do mês, houve entrada líquida de estrangeiros e, na primeira semana, o Ibovespa acumulou alta próxima de 5,4%, a maior valorização semanal desde janeiro, com o índice voltando a operar próximo de 189 mil pontos. No mesmo período, o dólar recuou para a faixa de R$ 5,08, o menor patamar recente, refletindo maior apetite por risco e fluxo mais positivo para ativos locais.
Por que as pesquisas eleitorais afetam os preços no curtíssimo prazo?
No curtíssimo prazo, o mercado precifica incerteza. Quando as pesquisas indicam um cenário mais equilibrado (segundo turno mais provável, por exemplo), os investidores tendem a:
- Revisar para baixo o prêmio de risco político, já que um resultado muito concentrado em um único nome costuma ser lido como maior risco de mudança de regras, pressão fiscal e volatilidade de políticas econômicas.
- Antecipar cenários de governabilidade mais complexa, o que, paradoxalmente, pode ser visto como “freio” a medidas mais extremas, reduzindo o temor de choques abruptos e permitindo que múltiplos setoriais se recomponham.
- Reposicionar carteiras: quem estava muito defensivo (menos bolsa, mais caixa) volta a aceitar um pouco mais de risco; quem estava alavancado na ponta curta pode alongar duration ou aumentar exposição a cíclicos domésticos.
O resultado prático é um movimento rápido de reprecificação de ativos: ações que haviam sido vendidas com força voltam a ser compradas, especialmente as mais sensíveis ao ciclo econômico e ao crédito interno.
Como se posicionar nesse tipo de cenário?
Quem investe em ações precisa estar sempre posicionado, mas ajustando o tamanho da exposição conforme:
- Cenário macro externo: trajetória de juros nos EUA (Treasuries), crescimento global, commodities e dólar.
- Cenário macro doméstico: expectativas de PIB, inflação, trajetória da Selic, risco fiscal e, naturalmente, ciclo eleitoral.
- Resultados das empresas: lucro, geração de caixa, alavancagem e capacidade de repassar custos.
- Movimento dos preços: tendências de alta/baixa, volumes e fluxo de estrangeiros, sem tentar adivinhar o topo ou o fundo, mas respeitando a relação risco/retorno em cada momento.
Em fases pré-eleição com pesquisas mais acirradas, é comum ver:
- Maior volatilidade em empresas sensíveis a juros e ao ciclo doméstico (varejo, construção, alguns serviços financeiros, utilities mais reguladas).
- Relativa resiliência (ou até correlação inversa) em exportadoras e dolarizadas, especialmente commodities (minério, petróleo, agro), que funcionam como hedge natural contra desvalorização do real e choques externos.
“Trade de eleições”, prêmio de risco, juros futuros e valuation
O chamado “trade de eleições” é, essencialmente, a operação de ajustar a carteira à nova distribuição de probabilidades políticas. Quando as pesquisas se acirram:
- O prêmio de risco embutido nas ações brasileiras cai, porque o mercado deixa de precificar um cenário “extremo” como o mais provável.
- Isso puxa juros futuros para baixo na curva brasileira, especialmente nos vencimentos mais longos, o que tende a beneficiar setores mais sensíveis ao custo do crédito e ao crescimento do PIB.
- Com juros futuros recuando, o valuation de cíclicos domésticos melhora: o desconto dos fluxos de caixa futuros é feito a uma taxa menor, elevando o preço justo teórico dessas ações.
Ao mesmo tempo, o movimento de commodities e petróleo no exterior ajuda a sustentar o otimismo em exportadoras, que passam a conviver com dois ventos a favor: preço da commodity em alta e possível desvalorização cambial futura.
Por que ter exportadoras e dolarizadas numa carteira de ações Brasil?
Uma carteira bem diversificada e descorrelacionada busca reduzir o risco de que todos os ativos se movam juntos na mesma direção. No contexto brasileiro, isso significa combinar:
- Empresas mais ligadas ao ciclo interno e a juros (que tendem a subir mais quando o cenário doméstico melhora e os juros caem, mas sofrem mais em momentos de aversão a risco e susto fiscal/eleitoral); e
- Exportadoras e dolarizadas (commodities como petróleo ou minério, petroquímicas, papel e celulose, parte do agronegócio), cujos resultados dependem mais do dólar e dos preços internacionais do que do consumo interno.
Essa mistura tem três vantagens práticas:
- Menos volatilidade no conjunto da obra: quando um grupo sofre, o outro pode segurar o resultado, suavizando a curva da carteira.
- Hedge natural contra o câmbio: em momentos de real fraco e risco externo, as exportadoras tendem a se beneficiar, compensando parte da pressão sobre as ações domésticas.
- Exposição a diferentes motores de retorno: ciclo de crédito interno de um lado; ciclo global de commodities e crescimento mundial de outro.
Isso não elimina o risco, mas torna a jornada de longo prazo mais “navegável” e ajuda o investidor a permanecer posicionado mesmo em fases de maior tensão.
A bolsa brasileira continua sendo um bom investimento, sempre na medida certa
O movimento recente reforça uma mensagem importante: a bolsa brasileira segue sendo um bom veículo de investimento de longo prazo, mas deve ser encarada como parte de um portfólio maior, e não como a única solução.
Um portfólio equilibrado, em geral, combina:
- Renda fixa (pré, pós e inflação), para dar previsibilidade, caixa para oportunidades e amortecimento de volatilidade;
- Ações Brasil, com exposição bem distribuída entre cíclicos domésticos, defensivos e exportadoras/dolarizadas;
- Ativos no exterior (renda fixa e variável), para diversificar risco-país, moeda e ciclos econômicos; e
- Ativos alternativos, conforme perfil e necessidade de renda e liquidez.
O “peso” de cada um desses blocos deve respeitar seu perfil de risco, horizonte de investimento e objetivos. Esses percentuais podem ser revisitados conforme muda o macro, os resultados das empresas, os próprios preços dos ativos e as prioridades do investidor.
O foco não está em tentar adivinhar o momento exato de entrar ou sair do mercado, mas sim em estruturar uma carteira sólida e sustentável para o longo prazo, imune às fortes oscilações e ao turbilhão de notícias vistos em meses como agosto.
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