A onda de recuperações judiciais e como proteger seu patrimônio

Você já se pegou olhando para uma ação que você acompanhava há anos e, de repente, viu a notícia de que a empresa entrou em recuperação judicial?
Imagem: freepik.

Você já se pegou olhando para uma ação que você acompanhava há anos e, de repente, viu a notícia de que a empresa entrou em recuperação judicial? É desconfortável. E, nos últimos meses, esse tipo de manchete deixou de ser exceção para virar rotina no Brasil.

Uma onda de recuperações que não para

O Brasil nunca teve tantas empresas em recuperação judicial ativa. Só no primeiro semestre de 2026, eram mais de 6,3 mil processos em andamento, recorde da série histórica, com alta de dois dígitos em relação ao ano anterior.

Em 2025, foram mais de 2,4 mil novos pedidos, e 2026 deve superar esse número, com casos bilionários saindo toda semana.

A lista dos últimos meses parece uma “cartela de bingo” do mercado: Raízen, maior empresa de açúcar e etanol do mundo, com recuperação extrajudicial de cerca de R$ 65 bilhões; Braskem, maior petroquímica do país, com US$ 10,9 bilhões (quase R$ 54 bilhões) em passivo financeiro; Casas Bahia, com R$ 17,3 bilhões; Habib’s (Grupo Gennius), com R$ 265 milhões; além de Americanas, Oi, Light, Ambipar, AgroGalaxy, Grupo Petrópolis, Tok&Stok, Marabraz, Casa & Vídeo, Coteminas, Wetzel, e até companhias aéreas como Azul, Gol e Latam, que recorreram ao Chapter 11 nos Estados Unidos.

O que é recuperação judicial, sem economês

Recuperação judicial é um processo que permite a uma empresa com dificuldades financeiras ganhar tempo para negociar suas dívidas e tentar evitar a falência.

Durante esse período, parte das cobranças e ações dos credores fica suspensa, e a empresa tem um prazo (geralmente 180 dias) para apresentar um plano de reestruturação.

A recuperação extrajudicial é parecida, mas acontece diretamente com os credores, sem passar pela Justiça, e costuma ser usada por empresas maiores e mais estruturadas.

Por que tantas empresas estão chegando a esse ponto?

O Grupo Gennius, dono do Habib’s, Ragazzo e Tendall, resumiu bem a história: a crise financeira foi provocada pela combinação de três fatores principais: efeitos da pandemia, mudanças no comportamento dos consumidores e a alta dos juros.

Mas o que vale para o Habib’s vale para dezenas de outras: dívidas acumuladas em momentos de crédito farto, margens apertadas e, de repente, um custo de dinheiro que explode.

Quando os juros sobem, o custo da dívida das empresas dispara. Para quem já estava no limite, isso vira uma bola de neve: o lucro não cobre mais os juros, o caixa aperta, fornecedores começam a cobrar à vista, e a empresa perde fôlego para investir, crescer ou até simplesmente manter a operação.

O juro estruturalmente alto no Brasil

O Brasil fechou 2025 com a Selic em 15% ao ano (pico histórico do ciclo) e, mesmo após cortes, segue com a taxa básica em 14% ao ano em 2026.

Títulos atrelados à inflação seguem pagando juro real acima de 7% em diversos prazos, há um bom tempo.

Se o “sem risco” paga 14% ao ano, quanto um empresário precisa exigir de retorno para justificar colocar capital em um negócio real? Some ao custo de oportunidade o prêmio pelo risco do negócio, pela iliquidez, pela complexidade trabalhista e tributária, pelo trabalho de executar, e a régua facilmente fica entre 20% e 22% ao ano.

Pouquíssimas empresas no mundo conseguem sustentar essa rentabilidade de forma consistente. A mensagem implícita enviada pelo Estado, ainda que não dita abertamente, é inquestionável: “Empreendedores, desistam… Empreender aqui tornou-se inviável”.

E o resultado aparece na prática: desde 2023, o número de microempresas em recuperação judicial subiu 133%; o de pequenas, 69%; e o de médias, 31%.

Como isso afeta quem investe em crédito privado, ações e FIIs

Se você investe em crédito privado, o risco é direto: a empresa que emitiu o papel pode entrar em recuperação e, no pior caso, você ter que aceitar um desconto, um prazo maior ou até um calote parcial.

Quem investe em ações sente o impacto na cotação: a notícia de recuperação judicial costuma derrubar o preço do papel, aumentar a volatilidade e, em alguns casos, diluir o acionista com conversão de dívida em ações.

Nos FIIs, o efeito pode ser mais indireto, mas real: se os inquilinos dos imóveis (shoppings, galpões, escritórios) estão em crise, o risco de inadimplência dos aluguéis sobe, e isso pressiona os rendimentos e a cota dos fundos.

Como se proteger: diversificação, pulverização e acompanhamento

A primeira linha de defesa é a diversificação. Não concentre sua carteira em um único emissor, setor ou tipo de ativo. Uma carteira pulverizada em vários créditos, ações e FIIs reduz o impacto de um único caso de recuperação judicial.

No crédito privado, evite se apaixonar por taxas muito acima da média sem entender o porquê. Prêmios generosos demais quase sempre escondem riscos maiores: alavancagem elevada, garantias fracas, setor em declínio.

Em ações e FIIs, fuja da ilusão de “empresa grande demais para quebrar”. Americanas, Oi, Light e outras mostraram que tamanho não é sinônimo de segurança.

A segunda linha de defesa é o acompanhamento. Ler relatórios, acompanhar resultados trimestrais, entender a evolução da dívida, do caixa e das margens faz toda a diferença. É chato? Sim. É necessário? Também.

Onde entra um analista profissional

Um analista que vive o mercado no dia a dia faz algo que é difícil para quem tem outra profissão: junta todas essas variáveis em uma estratégia coerente.

Em vez de olhar só para a taxa de um CDB, o yield de uma ação ou o dividend yield de um FII, ele examina balanços, projeções de caixa, estrutura de dívida, cenários de juros e riscos setoriais para decidir o que faz sentido na sua carteira.

Isso evita decisões impulsivas, como correr atrás de yield alto sem entender o risco, ou vender tudo em pânico quando sai uma notícia de recuperação judicial.

O mindset correto para esse ciclo

Não se trata de pessimismo com o Brasil, e sim de realismo com o ciclo. O país que bate recorde de recuperações judiciais é o mesmo que oferece um dos maiores juros reais do mundo.

Os dois lados dessa moeda precisam estar refletidos na sua carteira: cautela com crédito privado, diversificação internacional, liquidez para se mover e, quando possível, juro real contratado a favor do investidor.

A cartela de recuperações vai continuar sendo preenchida enquanto o custo do dinheiro no Brasil seguir incompatível com a rentabilidade de um negócio real.

Você não controla essa variável, mas controla o quanto do seu patrimônio está exposto a ela.

Se você quiser entender melhor como sua carteira está posicionada diante dessa onda de recuperações (sua exposição a crédito privado, sua diversificação, sua liquidez), agende um diagnóstico patrimonial gratuito.

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