Uma pergunta que protege o que você levou décadas para construir

Existe uma pergunta mais útil do que uma análise de mercado: o que precisaria acontecer para destruir o patrimônio que você levou 30 anos construindo?
Imagem: freepik.

Existe uma pergunta que eu considero mais útil do que qualquer análise de mercado, e ela é desconfortável: o que precisaria acontecer para destruir o patrimônio que você levou 30 anos construindo?

Quase ninguém faz essa pergunta. A conversa vai sempre para o outro lado. O que comprar, onde alocar, qual é a próxima oportunidade. E eu tenho convicção de que virar a pergunta ao contrário é uma das coisas mais valiosas que um investidor pode fazer com o próprio dinheiro.

A ideia não é minha. Em 13 de junho de 1986, Charlie Munger, então com 62 anos, foi falar na formatura de um colégio em Los Angeles onde era conselheiro havia anos e onde um dos filhos se formava naquele dia. A plateia esperava conselhos sobre como ter uma vida boa. Ele fez o oposto. Retomou e ampliou um discurso que Johnny Carson havia feito na mesma escola, listando receitas para garantir uma vida infeliz. Carson tinha oferecido 3. Munger acrescentou 4. A última delas era ignorar a ideia do sujeito que queria saber onde ia morrer, apenas para nunca ir até lá.

Munger pegou o método com Carl Jacobi, matemático alemão do século 19 que atacava problemas difíceis com uma instrução simples: inverta, sempre inverta. Na boca de Munger, virou algo mais seco: “Só quero saber onde vou morrer, para nunca ir lá.”

Agora traz isso para o patrimônio.

A lista de coisas que fazem capital crescer de forma confiável ninguém possui, e eu desconfio bastante de quem diz possuir. Já a lista de coisas que destroem patrimônio é curta, conhecida e repetitiva a ponto de ser chata: concentração excessiva em um ativo, num negócio ou numa moeda; alavancagem que só funciona no cenário bom; liquidez que não aparece no dia em que é necessária; custos e impostos corroendo o retorno sem constar em lugar nenhum do extrato; sucessão que nunca foi estruturada; e a velha decisão de abandonar a estratégia no pior momento possível.

A assimetria entre essas duas listas é o que me interessa. Um acerto brilhante acrescenta. Um erro grave subtrai anos. E alguns erros se tornam irreversíveis não porque o dinheiro seja impossível de recuperar, mas porque o tempo necessário para recuperá-lo já não está disponível. Aos 40 anos, quase tudo tem conserto. Aos 65, a conta é outra.

Comigo, essa ficha demorou a cair. Nos primeiros anos, eu passava o tempo perguntando o que comprar em seguida e vendia bons ativos para trocar por outros que pareciam melhores. Não tenho nenhuma perda espetacular para contar. Talvez esteja aí o problema: o custo não apareceu como um tombo, apareceu como um patrimônio menor do que poderia ter sido, diluído em 2 décadas.

Inverter, na prática, obriga a olhar o conjunto. Um investimento observado isoladamente quase nunca mostra por onde a coisa pode desandar. O caminho do estrago costuma estar na relação entre as partes: na concentração que se formou sem ninguém ter decidido por ela, na liquidez que parece existir e não existe, no arranjo tributário que fazia sentido em 2010, na falta de estrutura para o dia em que você não estiver mais aqui para administrar nada disso.

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