O que 20 anos de Bolsa me fizeram desaprender

Depois de duas décadas trabalhando com investimentos, principalmente ações, ficou cada vez mais claro que os grandes prejuízos raramente começam com algo obviamente ruim.
Imagem: Gemini.

Vinte anos não me ensinaram a prever o futuro.

Talvez essa tenha sido uma das lições mais valiosas que o mercado me deu.

Depois de duas décadas trabalhando com investimentos, principalmente ações, ficou cada vez mais claro que os grandes prejuízos raramente começam com algo obviamente ruim.

Eles costumam começar com uma história excelente.

Uma empresa crescendo rapidamente. Um mercado gigantesco pela frente. Uma tecnologia capaz de mudar uma indústria. Uma apresentação impecável. Projeções convincentes.

Quanto melhor a história, menor parece a necessidade de fazer perguntas desconfortáveis.

Foi exatamente o que vimos em muitos IPOs de 2020 e 2021.

Naquele período, juros muito baixos fizeram o mercado atribuir enorme valor a lucros que talvez só aparecessem muitos anos depois. A B3 recebeu 74 IPOs, e empresas como Enjoei, Méliuz, Westwing e Sequoia tornaram-se bons estudos sobre o que acontece quando expectativa e realidade precisam finalmente se encontrar.

Warren Buffett sempre tratou ofertas públicas com certo ceticismo por uma razão bastante racional.

Em um IPO existe uma assimetria interessante: quem está vendendo conhece profundamente o ativo, escolhe o momento da venda, participa da definição do preço e prepara a narrativa apresentada ao mercado.

O comprador recebe projeções sobre o futuro.

O vendedor recebe dinheiro no presente.

Isso não significa que IPOs sejam necessariamente maus investimentos. Significa apenas que a estrutura da transação deveria aumentar, e não diminuir, o nível de exigência do investidor.

Com os anos, outra coisa passou a me chamar atenção: a diferença entre empresas que prometem gerar caixa e empresas que já provaram repetidamente que conseguem fazê-lo.

Dividendos ajudam bastante nessa leitura.

Não porque dividend yield alto transforme automaticamente uma ação em bom investimento. Não transforma.

Lucros extraordinários, venda de ativos ou ciclos excepcionais de commodities podem produzir distribuições enormes durante algum tempo.

O que interessa é o mecanismo.

Uma empresa que consegue distribuir caixa de forma recorrente durante muitos anos precisou antes pagar funcionários, fornecedores, impostos, investimentos, juros e dívidas. O dinheiro restante precisou efetivamente existir.

Itaú Unibanco e BB Seguridade, por exemplo, operam dentro dessa realidade há muitos anos.

O dividendo funciona quase como um comprovante financeiro. Ele mostra que uma parte daquele lucro contábil conseguiu atravessar toda a demonstração financeira e chegar ao bolso do acionista.

Existe, porém, uma lição ainda mais difícil.

Conhecimento técnico não impede decisões ruins.

Já vi investidores capazes de discutir valuation, custo de capital, múltiplos e fluxo de caixa descontado venderem excelentes empresas durante momentos de pânico.

Em março de 2020, isso aconteceu em escala global.

Meses depois, aconteceu o movimento contrário. O medo deu lugar à euforia, e investidores passaram a comprar projeções extremamente otimistas como se juros próximos de zero fossem permanecer para sempre.

O modelo financeiro podia estar correto.

Quem abandonava o modelo era o investidor.

Quanto mais tempo passo no mercado, mais acredito que psicologia financeira deveria ocupar um espaço muito maior na formação de qualquer investidor sério. Medo, ganância, ancoragem, excesso de confiança e necessidade de agir conseguem destruir anos de análise em algumas horas.

Também passei a enxergar de maneira diferente a diversificação internacional.

Durante muito tempo, investir fora do Brasil foi tratado quase como uma opinião sobre o país.

Nunca deveria ter sido.

O MSCI Brazil possui apenas algumas dezenas de empresas e enorme concentração em finanças, energia e materiais. Tecnologia tem participação residual.

Agora compare isso com a quantidade de indústrias, moedas, modelos de negócios e ecossistemas empresariais existentes no restante do mundo.

Quando alguém mantém praticamente todo o patrimônio no Brasil, está fazendo uma escolha muito maior do que simplesmente preferir empresas brasileiras.

Está concentrando moeda, risco fiscal, política monetária, ciclo econômico e estrutura produtiva dentro da mesma geografia.

Talvez a última mudança relevante na minha forma de investir tenha sido desenvolver uma aversão crescente a teses que exigem muitas coisas dando certo simultaneamente.

Dívida elevada, pouco caixa e turnaround sempre parecem oferecer enormes assimetrias porque os preços geralmente estão deprimidos.

Às vezes oferecem.

Mas veja a quantidade de condições necessárias.

A empresa precisa recuperar margem, renegociar dívida, preservar liquidez, vender ativos, manter credores cooperativos e executar corretamente sua estratégia enquanto concorrentes e economia continuam se movendo.

A história da Oi mostrou como uma estrutura de capital excessivamente endividada pode deixar o acionista no final da fila.

A OGX mostrou outra coisa: reservas estimadas, apresentações sofisticadas e expectativas de produção continuam sendo hipóteses até se converterem em fluxo de caixa.

Hoje faço perguntas diferentes antes de investir.

Quem está me vendendo essa história e quais incentivos essa pessoa possui?

Quanto do lucro realmente vira caixa?

Eu continuaria acreditando nessa tese depois de uma queda de 40%?

Quais riscos da minha carteira são apenas versões diferentes do mesmo risco Brasil?

E, talvez a mais importante:

Quantas coisas precisam dar certo para eu ganhar dinheiro?

Vinte anos de mercado não produziram em mim a capacidade de encontrar investimentos infalíveis.

Produziram algo que considero mais útil: a necessidade de fazer menos apostas baseadas em fé.

Experiência não torna o futuro previsível.

Ela apenas faz algumas promessas parecerem muito mais caras.

Se essa reflexão fez você pensar sobre quantas premissas sustentam hoje o seu patrimônio, um Diagnóstico Patrimonial pode ajudar a enxergar onde existem riscos, concentrações ou dependências que a carteira isoladamente não mostra.

Sobre o Autor

COMPARTILHE

Receba conteúdos exclusivos por e-mail

Ao clicar no botão você autoriza o GuiaInvest a utilizar os dados fornecidos para encaminhar conteúdos informativos e publicitários.

O que ler agora...

Você pode estar roubando dinheiro de si mesmo

Tente imaginar a pessoa que vai acordar com o seu nome, pagar suas contas, lidar com seu patrimônio e viver com as consequências financeiras das decisões que você está tomando agora.

This website uses cookies

We use cookies to personalize content, provide social media features, and analyze our traffic. We also share information about your use of our site with our analytics partners. You can change your preferences at any time. For more information, please see our Privacy Policy and Cookie Policy.