Um estado americano quase iguala o PIB do Brasil

A Flórida ultrapassou a Austrália e o México e virou oficialmente a 14ª maior economia do planeta. Sozinha. Um estado americano, não um país.
Imagem: Freepik.

Semana passada saiu um número que resumiu, sem querer, boa parte da minha própria trajetória. A Flórida ultrapassou a Austrália e o México e virou oficialmente a 14ª maior economia do planeta. Sozinha. Um estado americano, não um país.

Fiquei olhando aquele dado por mais tempo do que deveria. Não pela Flórida em si — pela comparação que ele me obrigou a fazer. Existe um número parecido, bem menor e muito mais pessoal, que carrego comigo desde que troquei Porto Alegre por Miami. E é dele que quero falar hoje.

Porto Alegre, a cidade onde nasci, cresci e construí a primeira metade da minha carreira, tem hoje um PIB de cerca de R$ 105 bilhões — algo próximo de US$ 20 bilhões. É uma economia relevante para os padrões brasileiros: a nona maior entre as capitais do país, com base de serviços diversificada e um padrão de vida bom.

Miami-Dade, o condado onde moro hoje, produz sozinho mais de US$ 260 bilhões por ano. Só o condado — sem contar Broward e Palm Beach, que formam junto a região metropolitana de Miami. Isso é mais de doze vezes o tamanho da economia da cidade onde vivi a vida inteira. Doze vezes.

E aí o número fica ainda mais difícil de ignorar. Segundo o levantamento mais recente divulgado pela Florida Chamber Foundation, a Flórida como um todo — um único dos cinquenta estados americanos — tem hoje um PIB de US$ 1,83 trilhão. O Brasil inteiro, com 213 milhões de habitantes, 26 estados e um Distrito Federal, produz hoje cerca de US$ 2,2 trilhões.

Um único estado americano já produz quase 80% de tudo o que o Brasil inteiro produz. Não estou comparando qualidade de vida, clima, segurança ou cultura — cada uma dessas dimensões merece conversa própria, e o Brasil vence disparado em muitas delas. Estou comparando uma única coisa: o tamanho do motor econômico que sustenta os ativos onde você pode investir.

É aqui que a maioria dos investidores brasileiros perde a real dimensão do problema. Quando alguém decide diversificar patrimônio para fora, geralmente pensa em proteção cambial, em fugir da instabilidade política, em blindagem sucessória. Tudo isso importa — já escrevi sobre cada um desses pontos aqui. Mas existe uma camada anterior a todas elas, e ela é puramente matemática: o tamanho do universo de oportunidades que você está deixando de acessar.

Olha os números do mercado financeiro, que no fim é onde a conversa realmente se resolve para quem investe. O valor somado de todas as empresas negociadas nas bolsas americanas passa de US$ 78 trilhões. A B3, a bolsa brasileira, gira em torno de US$ 1 trilhão — mesmo depois do rali recente que levou o Ibovespa à sua máxima histórica.

O mercado americano é cerca de 80 vezes maior do que o mercado brasileiro inteiro. Não 80% maior. Oitenta vezes. Pense em dois cardápios: um com oitenta pratos, outro com um prato só. O investidor que nunca internacionalizou o patrimônio está, literalmente, escolhendo dentro do cardápio de um prato.

E esse cardápio brasileiro não é só pequeno — ele é concentrado. Um punhado de bancos, uma mineradora, uma petroleira e algumas gigantes de commodities respondem pela maior fatia do índice. Setores que definem a economia do século 21 — tecnologia de ponta, biotecnologia, inteligência artificial, semicondutores — praticamente não existem na bolsa brasileira em escala relevante. Não porque faltem boas empresas brasileiras. Porque o mercado de capitais do país ainda não tem profundidade para sustentar esse tipo de negócio em escala global.

Isso não é uma crítica ao Brasil — é uma constatação sobre estágio de desenvolvimento de mercado de capitais, o mesmo caminho que os próprios Estados Unidos percorreram há um século. Sonho, como qualquer brasileiro que ama o próprio país, com o dia em que essa distância diminuir de verdade. Mas planejar patrimônio com base num sonho, por mais legítimo que seja, é o tipo de aposta que separa quem protege a família de quem só torce por ela.

Não saí de Porto Alegre porque deixei de gostar da cidade que me formou — ainda é lá que estão minhas raízes, minha história, boa parte de quem sou. Saí porque, em algum momento, entendi que amar um lugar e blindar um patrimônio são duas decisões diferentes, e nem sempre apontam na mesma direção. Você pode continuar morando no Brasil e ainda assim decidir que seu dinheiro não precisa ficar restrito ao cardápio de um prato só.

Se você nunca colocou no papel o tamanho real dessa distância — entre o mercado onde seu capital está hoje e o mercado onde ele poderia estar — esse é o primeiro número que vale a pena descobrir.

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 — Daniel Fogaça

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